desenhando novas cidades em guardanapos na mesa de um bar


Era um prédio normal, discreto. Três pavimentos numa esquina, o volume cilíndrico da escada revestido de tijolos de vidro formando um eixo de simetria rigorosamente obedecido por duas fachadas que seguiam pelas respectivas ruas com três fileiras de três janelas quadradas. Estável como um cubo mágico monocromático. Despretensioso, um edifício que, eu e meu colegas, quando estudantes de arquitetura, com pretensão e sem precisão, chamaríamos de proto-moderno.

Hey, peraí! Por que falei "era"? Continua lá! Ainda é, de certa forma...

O edifício está em uma das minhas rotas de caminhada, semanalmente passo por ele. Com a vertiginosa demolição de prédios antigos imposta pela pressão imobiliária, fiquei a fim de fotografá-lo. 

Mas, num dia eu estava com muita pressa, no outro, o sol estava numa posição que não favorecia; na semana seguinte, havia uma caçamba do disk-entulhos em frente; uma vez um menino me tirou do clima ao pedir um autógrafo enquanto eu focava; numa outra passagem, havia uma senhora na janela e eu não quis constrangê-la fotografando sua casa... 

... houve a vez em que esqueci o celular, a semana em que mudei de rota, o dia em que um caminhão da companhia de energia elétrica erguia um cara para consertar o transformador no poste bem em frente ao edifício... 

... e assim foi passando o tempo até que, um dia, me surpreendi: atrás do prédio surgira uma enorme construção cercada por agressivos guindastes. Plantada no outro lado da quadra, crescera muito e muito rapidamente. Pairava como um urubu sobre o "meu" edifício. Já não seria possível fotografá-lo envolto só por árvores, nuvens e céu. E pra piorar, picharam algumas bobagens na fachada. 

Quem mandou esperar a situação perfeita? Na vida, ela só existe como imagem poética (ou no photoshop). O prédio não mudou, mas, bah, como mudou! Às vezes, mesmo que nos mantenhamos firmes e fortes, a degradação do entorno insiste em nos puxar pra baixo, né? 

Eu, por outro lado, comecei a deixar o celular em casa quando vou caminhar. Um pouco para sair da vida virtual por algumas horas e me focar em... ahn... nada! Um pouco por conta dos assaltos, pois minha cidade tá foda. Um motivo alto e outro baixo, na esperança de que a simetria de astrais opostos traga um significado equilibrado para a ausência do aparelho.

Ok, o importante, por mais que a vida vá nos limitando, é não perder a capacidade de observar (criar) pequenas belezas cotidianas. Mesmo que só possamos fotografá-las com a mente. Há sempre muita coisa legal por aí, em suas pequenas imperfeições. Nota mental para uma próxima vida.

(*)

bah: e nesta vida, perfeitamente imperfeita, segue a tour inSULar. Nesta semana, nas calorosas (em termos meteorológicos e humanos) terras baianas:

Sexta, estarei em Vitória da Conquista,
no Festival de Inverno.
Esta foto é da passagem por lá
em 2013.
Sábado, volto a Salvador,
no Barra Hall.
Acima, algumas passagens por solo
soteropolitano.
abraços
25ago2015

miscelânea


I
FRAGMENTOS

Um jornal me pediu depoimento sobre os 50 anos da Jovem Guarda. Não vivi o momento em tempo real, mas quem não o viveu por tabela, né? Escrevi o seguinte:

Uma eletrola, móvel enorme com rádio e toca-discos, dominava a sala estar da casa da minha infância. Um dia apareceu por lá um disco d'OS INCRÍVEIS.

De cara fiquei fascinado por duas canções : O Milionário (ah, bons tempos da música instrumental popular!) e a dramática Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles E Os Rolling Stones, uma pequena ópera em 3 minutos com direito a rajada de metralhadora na introdução. A paixão por esta música me fez ganhar meu primeiro violão.

Por essa época, no aniversário da minha irmã, fizeram um bolo que tinha como enfeite 4 bonequinhos tocando guitarras, baixo e bateria. Esperei ansioso que o cortassem para que eu pudesse brincar com aquelas miniaturas d'OS INCRÍVEIS. 

Fiquei muito decepcionado quando um estraga-prazeres me disse que aqueles não eram OS INCRÍVEIS e, sim, os BEATLES. 

Vendo minha incredulidade, o maldito adulto apontava para o nome escrito na bateria. Mas era inútil, eu não sabia ler. A dúvida persistiu por um tempo (na real, nunca me convenci).

tocando
Era Um Garoto...
São cada vez mais numerosos os pedidos que recebo de entrevista, depoimentos, participações, biografias, engajamentos... cobrindo uma gama enciclopédica de assuntos e questões. Falta tempo para atender; não exatamente o tempo que faz o tique-taque soar: o tempo que faz o coração bater, a capacidade de fazer tudo com brilho nos olhos. E, sem brilho nos olhos, fazer pra que, né?  

Tenho me visto dizendo, cada vez mais, não às solicitações. Não por desconsiderá-las, pelo contrário, para, quando fizer, fazer a pleno. Administrar a energia é uma sabedoria cada vez mais necessária em tempos tão velozes.

Agora, mais ainda, já que começaram a girar lentamente as engrenagens que levarão ao próximo capítulo da minha arte/ofício. Resta a esperança de que a perspicácia de quem recolhe fragmentos dispersos dê sentido aos silêncios episódicos e ao aparente caos.


II
O PREÇO DA PUREZA

Crise é o Caralho!
ou
Caralho, é a Crise!
?
Meet and Greet 
ou
Mita e Grita
?
um inverno quente
sinaliza um verão frio
ou
um verão mais quente ainda
?
vai saber...

bah : o certo é que inSULar volta a Minas nessa semana, Bora!


18ago2015

Datas e Nomes


Nasci na véspera do Natal. Perdi meu pai às vésperas de um longínquo dia dos pais. Idas e vindas, dois lados da mesma moeda. Dois fatos que embaralham, no meu imaginário, datas gerais e particulares; pessoais e coletivas.

No dia dos pais de 1978 (um dia de merda para mim), os jornais estamparam uma propaganda de página inteira, graficamente muito bela: o retrato de um homem fantasiado de palhaço com a legenda PAIAÇO.

Reverberou fortemente em mim, obviamente, pelo momento que eu vivia (duvido que algum contemporâneo lembre-se do anúncio tanto tempo depois). Mas, não só por isso: na real, trata-se de uma síntese poderosa em imagem e trocadilho, né? 

Aço e palhaço: a fortaleza rígida do metal e a poesia lúdica do provocador de risos. Dualidade que me parece central na figura paterna. Tão próxima e tão distante (ah, as moedas e seus dois lados!) da figura materna, que carrega - literalmente dentro de si - por nove meses, ciente da sua fragilidade, esperando amadurecer, o futuro.

Relações idealmente complementares. Um atuando nos extremos, a outra, no centro; um buscando, a outra mantendo.

Hagar
guerreiro e palhaço
Lance bonito aconteceu no mais recente dia dos pais. Não estou me referindo à cuca de morango que ganhei da minha filha nem à vitória histórica do time que meu pai me ensinou a amar (entre inúmeras coisas que me ensinou, como, por exemplo, respeitar uma bela fatia de cuca com café na tarde de domingo). 

Estes foram, sem dúvida, dois lances deliciosos. Mas o que achei especial no domingo foi outra coisa: o comovente fluxo, nas redes sociais, de manifestações de pessoas falando sobre suas relações de pais e filhos. Cada um com seu jeito, efusivos ou discretos, eufóricos ou saudosos; todos com o que temos de melhor: nossa humanidade, força e delicadeza. 

Que bacana! Ali na www que, cada vez mais, vemos como um terreno baldio, deserto de sensibilidade e inteligência, campo de batalha de baixarias e covardias; foi bonito de ver e ler. Parabéns a quem participou com imagens e/ou palavras dessa criação emocional coletiva. Chega a dar esperança. 

amanhã 
vamos rir de tudo isso
amanhã 
vamos trocar datas e nomes
amanhã 
o vinho vai brindar a uva
hey menina
sei que o tempo cicatriza
hey menina
vamos rir do que nos fez chorar
amanhã

(*)

bah: entrementes, segue a saga inSULarNo sábado, a tour voltou à Goiânia. Pela terceira vez na mesma casa de espetáculos. 

Na primeira, o pessoal relacionado ao evento estava em dúvida sobre como seria, pois, além da novidade na formatação do meu trabalho (um trio solo?!? músicas novas e clássicos?!?), a agenda da casa era tradicionalmente sertaneja. 

Pois, foi super. Voltamos duas vezes e já ouvi gente falando sobre 2016! Bora!


A semana que inicia nos levará a Santa Maria-RS na sexta e Dois Vizinhos-PR no sábado. Abaixo algumas passagens por Santa Maria da Boca do Monte.

Bora!
11ago2015

(um post visual)


ARAME FARPADO



seria engraçado
se não fosse triste
acesso negado
a gente não existe


arame farpado
silêncio de chumbo
seria absurdo
se não fosse lei


a serpente troca de pele
a gente não esquece
o avião reabastece
sem deixar de voar



seria ruído 
se não fosse um sinal
só para iniciados
transe tribal


seriam ruínas
mas a gente não esquece
o avião reabastece 
em pleno ar



não sofro mais, agora eu sei
o que nos faz sobreviver




Bah: a tour inSULar volta à estrada depois de um fim de semana de folga em que tive o prazer de participar do show de lançamento do novo disco/tour do Esteban, em Porto Alegre. 


backstage do Opinião, com os amigos da
Comparsa Elétrica
Taí a rota para as próximas 6 semanas.
Todos convidados para fazer os shows junto com a gente
a cada noite, cada cidade, cada canção.
 04ago2015

1.000 bibliotecas de Alexandria


Caraca, tô ofegante pois vim correndo contar um lance inacreditável pra vocês: seguinte, eu tava vendo um jogo de vôlei na TV e - cara 'cê não vai nem acreditar! - tinha um DJ tocando música (fragmentos de) nos poucos segundos entre pontos! Surreal! Não era nos poucos minutos entre sets, era entre os pontos mesmo!

O quê?!? Não é novidade? Já rola há tempo? Bah... Sempre me surpreende esse cerco ao silêncio, às pausas, à respiração profunda... um mundo sempre ofegante.

Será que essa ânsia de preencher qualquer intervalo é medo da introspecção, de olhar para si? Será que, daqui a pouco, os fragmentos de música virarão anúncios de produtos, equivalentes sonoros das placas que poluem visualmente cada centímertro das laterais da quadra? Ou tô viajando?

(*)

Lembro de ter participado de um programa de rádio (desses com vários humoristas onde se fala demais, alto demais, piadas inteligentes demais) e de deixar os caras surpresos (quase indignados) quando disse que gostava de acompanhar jogos de tênis; normalmente (se é que existe algo normal) são considerados lentos e tediosos.

Ok, locutores de rádio e humoristas tendem a estar alguns tons acima, faz parte do ofício... mas, admito, talvez eu esteja no outro lado do espectro, alguns tons abaixo.

No mesmo programa, causou espanto o fato de eu ser o feliz proprietário de um Renault Kangoo. Por que? Não sei... talvez por não ser carro de "pegador" (carros muito velozes para se andar muito devagar em frente às muvucas) e, em alguns círculos, este é o motivo principal para se ter um carro.

Tudo bem, nunca fui "pegador" mesmo. E tenho saudades do meu Kangoo! Em nenhum outro carro consigo colocar meu baixo, um amp e duas caixas com 4 falantes de 10" para ir ensaiar. Cada um com seu ofício.

(*)

Voltando a falar em fragmentos de música: tempos atrás, um colega me falou excitado de um novo mercado que se abria: a utilização de canções como ringtones, sons de chamada de celular. Achei tão pouco excitante quanto a reprodução de um quadro clássico num chaveirinho. Uma lembrança do original, nada além.

Curitiba sendo Curitiba
comigo novamente.
Gracias!
Sábado, antes de mais um show inesquecível na capital paranaense, me reuni com Tiago Iorc e sua banda num estúdio para registrar em video uma música que escrevemos juntos (e ele gravou no disco Troco Likes - baita nome e bela capa).

Conheci Tiago pessoalmente na gravação do DVD do Duca, ele sugeriu fazermos algo... mandei uns versos que ele transformou numa canção (o verso em itálico é dele):

ALEXANDRIA

não tiro a razão de quem não tem razão
não ponho a mão no fogo pois é verão
não dou razão a quem perde a razão
prest’atencão, então
           
vá procurar o que caiu da mão
refazer sozinho o caminho olhando pro chão

gente demais
com tempo demais
falando demais
alto demais

vamos lá atrás
de um pouco de paz
aqui tem gente demais

não vi solução na mão da contramão
brincando com fogo pela atenção
perdi a razão com quem me deu razão
presta atenção, então

vá procurar o que caiu da mão
refazer sozinho o caminho olhando pro chão

gente demais
com tempo demais
falando demais
alto demais

vamos lá atrás
de um pouco de paz
aqui tem gente demais

a gente queima todo dia
mil bibliotecas de Alexandria
a gente teima, antes temia
já não sabe o que sabia

gente demais
com tempo demais
falando demais
alto demais

vamos lá atrás
de um pouco de paz
aqui tem gente demais

aqui, o audio da versão original:
https://www.youtube.com/watch?v=YnXtAbU2dXI

Quando acordei para ir à gravação, tava cansadaço da viagem, do show da noite anterior e da semana de ensaios e rearranjos. Mas quando cheguei ao estúdio, o cansaço sumiu. Por conta do astral do pessoal e por estar num estúdio (literalmente) em construção. 

Que legal! Num momento em que vários destes templos de som estão sendo demolidos (afinal, não é necessário um espaço com som/astral bacana para gravar fragmentos) ver um sendo construído é uma lufada de esperança.



Pra dar um clima "tudaver" com a música, espalharam  no cenário alguns livros. Bati os olhos neles e me lembrei do Farenheit 451 (filme do François Truffaut baseado em livro do Ray Bradbury). A Wikipedia resume-o assim: o romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas e o pensamento crítico é suprimido". Todos os livros encontrados são queimados (daí o título). Dissidentes fogem e cada um tem como missão decorar um volume.

(*)

A lembrança, o registro, em tempos fragmentados... uma forma de resistência, uma missão.

(*)

O filme é de 1966. São sempre interessantes as visões que o passado tem do futuro (ah, minha infância vendo The Jetsons!). Se não me engano, o dia para onde viajavam em De Volta Para o Futuro aconteceu há poucas semanas, né? Ah, que interessante confrontar o presente com as previsões feitas no passado.

(*)

Enfim... reflexões - fragmentos? - de mais um fim de semana na estrada rascunhadas no saculejar do ônibus. E a estrada segue. Junte-se a nós!


bah: hoje na minha passagem semanal pela Stereophonica para autografar discos e livros, recebi meu exemplar do DVD do Duca, Plano Aberto. Afudê! Fico honrado de ter participado! Gravamos Missão, para a qual escrevi estes versos depois de receber a melodia:

qual é a tua, meu chapa

qual é a tua missão

velho malandro da Lapa

dono de um mundo em extinção

qual é a tua ruína
teu coliseu, tuas missões

lá onde tudo termina

um sonho jogado aos leões

a imagem que ficou

quando a luz se apagou
pra sempre
sete povos onde estão
sete dias passarão
pra sempre   

vai, vai sem drama
sem medo de errar 
vai sem culpa
e se quiser voltar
vem sem pressa
sem medo de encontrar
o teu lugar

­­­­­­
sete vidas, qual é a tua
tantos futuros na mão

uma lança, índio charrua

quem sabe a paz de um chimarrão

a imagem que ficou

quando a luz se apagou
pra sempre
sete povos onde estão
sete dias passarão
pra sempre  

vai, vai sem drama
sem medo de errar 
vai sem culpa 
e se quiser voltar
vem sem pressa
sem medo de encontrar
o teu lugar

Duca:
músico virtuose
ser humano virtuoso

Você encontra o Plano Aberto na
www.stereophonica.com.br
28jul2015

troço louco


Das duas, uma: ou eu mudei ou não gosto de chuva tanto quanto imaginava gostar. Parece estar chovendo desde sempre em POA e não estou achando nada divertido. Minha solidariedade ao pessoal que está sofrendo nas regiões atingidas por cheias e desabamentos. 

Ora, direis: tudo depende da medida! Sim, claro, é a medida que diferencia o remédio do veneno. Assim como nas variações de estado de espírito, faz toda a diferença do mundo saber que as nuvens são passageiras, né?

vai chover
vai secar
serão águas passadas

O aguaceiro obrigou este pedestre convicto a apelar ao automóvel e ele se deparou com um fragmento de humor involuntário, como que para deixar um pouco mais leve o dia cinza e derreter o chumbo do céu:

Que merda é essa no espelho?!?
Não, não precisam responder,
é uma pergunta retórica.
E um tiro no pé!
=)
Voltando a falar sério, semana de muito (e muito prazeroso) trabalho: ensaios com Rafa e Nando, refinando e burilando essa obra em contínuo e permanente processo de criação que é o inSULar AO VIVO.

Teremos um fim de semana paranaense: na sexta, União da Vitória, onde só estive uma vez (em 2010, na tour POUCA VOGAL).

Sábado, volto a Curitiba, onde toquei incontáveis vezes desde a primeira, em 87, ainda na tour LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS. Adoro a cidade. É sempre bom voltar, ainda mais para rolar som na excelente sala do Teatro Positivo.

Ali, sim, posso contar as vezes em que estive: em 2008 (na tour NOVOS HORIZONTES), 2012 (POUCA VOGAL), 2013 (tour inSULar, antes da chegada do disco) e 2014 (inSULar já com o disco, mas ainda sem o DVD).

Agora, 2015, chego com tudo em cima... sim, sou suspeito, mas a tour tá mesmo linda e teremos novidades. Apareçam, o show é de vocês!


bah 01: pra quem está em POA, a boa da semana é o show do Bebeto Alves ao lado dos incríveis BlackBagualNegoVéio : de terça a quinta, no Teatro Renascença, uma sala especial para nós, porto-alegrenses.

Outro Nada é mais uma parceria nossa, irmã de Milonga Orientao. Ele deu o start com a melodia e eu fiz a letra:

quando a noite já era
um neon que não
apenas um garçom com sono
esfregando o chão

enquanto um pastor falava
do Monte Sinai
ele chegou na rodoviária
vindo da fronteira com o Uruguai

que troço louco
destino
na falta de outro nome
há nomes demais

que traço torto
desenha
o rastro da ausência
a crença que há

chegou de Santa Maria
ainda noutro dia
veio de Uruguaiana
uma semana atrás

vale, serra, litoral
o tempo tanto faz
veio e não trouxe nada
um outro nada deixou pra trás

que troço louco
destino
na falta de outro nome
há nomes demais

que traço torto
desenha
o rastro da ausência
a crença que há

quando a noite já era
e o dia ainda não

que traço torto
desenha 
linhas no horizonte
aos montes, demais


bah 02: Ainda nessa semana, Dom Luiz Carlos Borges estará em São Paulo participando da gravação comemorativa de aniversário do excelente programa Sr Brasil.

Duca está lançando seu DVD, Paulinho Goulart segue esmerilhando com a Comparsa Elétrica, o Instrumental Picumã e no trabalho novo do Esteban (que tem uma brilhante estrada pela frente!).

Orgulho de ter juntado estes malucos no inSULar ao Vivo. Honra e prazer.

Apareçam, o show é nosso, mas é de vocês!


bah 03:  escrevi este post com o laptop sobre a mesa de jantar que herdei da minha vó e que, na enchente de 1941, em POA, ficou quase totalmente submersa. A máquina de costura Singer da vó, seu instrumento de trabalho, foi colocada sobre a mesa e lá ficou, protegida, até que a água baixasse.

Talvez não se faça mais mesas como antigamente, mas gente bacana sempre haverá; pessoal de POA e região que quiser/puder ajudar os desabrigados: 
http://gaucha.clicrbs.com.br/rs/noticia-aberta/saiba-como-ajudar-os-gauchos-que-estao-fora-de-casa-142985.html
21jul2015

cidades maravilhosas


Nesse fim de semana (próximo passado, como se diz em linguagem formal) a tour inSULar passou por Lorena e Rio de Janeiro me deixando (e, aparentemente, muitas pessoas) bem feliz, graças a Deus. 

Tô na estrada há 30 anos, o que me dá a prerrogativa de conhecer um pouquinhozinhoinho meu trabalho, né? Não tanto quanto algumas pessoas acham que conhecem, é claro :-) E o que me chama atenção nessa tour é a regularidade.

Pontos altos, todas tinham (e tinham muitos, eu acho). Mas a inSULar é super constante. Pode ser devido à minha maturidade, a uma maior compreensão da minha música pelo ambiente, à galera bacana que me acompanha (ainda que este não seja um diferencial, pois sempre houve gente bacana ao meu lado), enfim, sei lá... ao momento.


Lorena tem um lance característico, talvez por sua posição geográfica e/ou pelo DNA da casa de shows: sempre pinta gente de várias outras cidades. Cada um que me cumprimentava pessoalmente, no hotel ou na entrada e saída do show, dizia vir de uma cidade diferente! Sou super grato a essa galera que cai na estrada para nos ver tocar.


O Rio sempre é pródigo em flashbacks. Pessoais ou relacionados à minha carreira ou mesmo à geografia urbana. Lembranças emocionantes. Começando pelo Circo Voador, para onde voltei depois de ter tocado lá pela primeira vez em 86. 

Morei na cidade dez anos. Traduzindo em discos: Alívio Imediato, O Papa é Pop, Várias Variáveis, GL&M, Filmes de Guerra Canções de Amor, Simples de Coração, Gessinger Trio e Minuano.  Se fosse traduzir este período em outros aspectos da minha vida, faltaria espaço mesmo na www.

(*)

Minutos antes de sair do hotel para ir passar o som, recebi, via email da assessoria de imprensa, um pedido de entrevista diferente dos que costumo receber: tratava-se de um site especializado em "empreendedorismo musical".

Eram perguntas interessantes e bem articuladas falando sobre o impacto de mudanças tecnológicas e econômicas na administração da minha carreira. Tentei responder deixando claro que nunca me vi como empreendedor e que não penso na minha música como produto nem no meu público como consumidores. Apesar de reconhecer que possamos racionalmente nos reduzir a isso, prefiro não fazê-lo.

Depois do soundcheck, ainda no Circo, dei um depoimento em video sobre a relação artista/fã para um projeto bacana. Acho que falei mais como fã do que como artista, afinal, é assim que me vejo. 

Minutos antes do show, rolou uma rápida entrevista de "variedades" que - apesar da minha falta do que dizer a respeito - parece ter girado em torno do meu cabelo. 

Depois do show, por email, conversei sobre o equipamento que uso na tour com um jornalista de relevantes serviços prestados ao roque nacional que havia assistido ao show .

Este texto está sendo escrito enquanto espero ligação de uma rádio para falar sobre rock, no seu dia.

(*)

Propostas diferentes, diferentes ângulos, numa atividade importante mas que ainda não aprendi direito: falar às pessoas através do filtro da imprensa.

O que eu acho que aprendi, ou que talvez já tenha nascido intuindo, é algo difícil de descrever e que acontece durante um show.

( Ops: melhor esquecer este par de linhas acima e não repetir o erro de quem acha que me conhece completamente: a gente sempre descobre coisas nos shows, nunca aprende o suficiente, jamais sai do bis sabendo tudo. )

Nesses dois shows, me fascinou o que acontece num momento específico do roteiro: quando saio de uma sequência de hits (Terra de Gigantes, Piano Bar, Somos Quem Podemos Ser) no acordeon, pego a doubleneck e toco uma música nova, regional, introspectiva como milongas costumam ser e a galera segue ali, firme ao meu lado, viajando junto! Que privilégio!  

na volta pra casa,
indício de que, cada vez mais,
tudo está exposto: os smartphones
já podem permanecer ligados
(em modo avião)
 durante pousos e decolagens.
No fim de semana que vem (próximo futuro), rola uma folga na agenda de shows. Aproveitarei para ensaiar com Rafa Bisogno e Nando Peters, que assumirá a guitarra à medida em que Tavares se dedica ao lançamento do seu próprio trabalho.

( Fiquem ligados: o disco do Esteban se chama Saca la Muerte de tu Vida - SLMDTV - e está disponível  no www.stereophonica.com.br . Dia 02ago participo do show de lançamento em POA, no Opinião. "Dale!",  como diz o Rafael. )

Já estamos trabalhando em canções que entrarão no setlist e alguns novos arranjos que vão pintar nos próximos shows, a saber:



depois... segue a estrada:


abraços
14jul2015

os sinais estão no ar


Imagino que Deus, mesmo em Sua infinita misericórdia, tenha coisas mais importantes e interessantes a fazer do que me mandar sinais. 

Ainda mais numa semana em que três canais de TV estão passando o torneio de Wimbledon. Ele deve estar num sofá cósmico, com um controle remoto galáctico numa mão e pipocas metafísicas na outra, checando o que atletas privilegiados estão fazendo com o dom que receberam d'Ele.

Mas, como sou muito metido à besta, mantenho-me sempre atento a sobrenaturais - ainda que sutis - manifestações de como, apesar das aparências, as coisas realmente são ou deveriam ser.

(*)

Sábado, enquanto almoçava com um companheiro de estrada antes de irmos passar o som, rolou uma conversa sobre a satisfação que a tour inSULar tem proporcionado, sobre o êxito em manter um fino equilíbrio entre novidades e clássicos no setlist. Parece fácil, mas vivemos um momento em que o padrão geral parece ser de retrocesso a um repertório primário, que não corra riscos. 

Enfim... era um papo que misturava orgulho e pé no chão. Certeza de estar no caminho certo, dúvida sobre aonde ele nos levará. Fé cega e pé atrás. Sempre é bom mixar instinto e reflexão pois, sabe como é, quem está 100% certo de algo não está 100% certo.

De repente, aproximou-se da nossa mesa uma menina muito querida no auge dos seus quatro aninhos. Ela disse que era fã. Os pais vieram logo atrás e reforçaram que ela adorava ver o DVD. Era uma família muito simpática e bem educada. Astral bacana mesmo.

Quando sugeriram que a menina cantasse um trechinho da canção favorita, imaginei que seria uma das músicas mais conhecidas... ou Pose, que, apesar de não ser literalmente um hit, reverberou muito fortemente entre pais e filhos depois da gravação do Acústico MTV (um pouco pelo arranjo e muito pela participação graciosamente carismática da Clara).

Para minha surpresa, a música cantada pela garotinha de quatro anos naquele restaurante no interior de Minas foi a pouco conhecida Deserto Freezer. Eu e meu colega trocamos olhares sorridentes: é... os sinais estavam no ar.
07jul2015

Boa semana para todos! 
Eu estarei por aí: