E, afinal, o que é blues? O sorriso triste do Rei ou o choro alegre da Lucille?


Vi BB King pela primeira vez, na TV, quando eu era bem piá. A única chance de "ouver" este tipo de som era num programa que ia ao ar nas tardes de sábado e que tinha, como abertura, a música Dreamer do Supertramp. 

Clipes eram raros - a palavra nem existia. Talvez por isso, o do Blues Boy King era presença constante no programa, ao lado de um do Deep Purple. Usando uma raquete como guitarra e a antena da TV como microfone, eu me divertia imitando Ritchie Blackmore e o mestre. 

As raquetes já não são de madeira, as TVs já não têm antenas, basta um clique e temos acesso abundante à música em formato audiovisual... muito mudou, mas segue igual a admiração que tenho pelos caras. E a intro de Dreamer ainda arrepia este velho piá sonhador.

(*)

Gosto dos artistas que surpreendem quando falam, aqueles que não dão literalmente o que se espera, na hora que se espera. Suspeito, por exemplo, dos que dizem que suas canções prediletas são seus maiores sucessos. Acho muita coincidência. 

Perguntado qual de suas músicas era a preferida, BB King disse que não tinha uma, mas que, se conseguisse cantar Always On My Mind como Willie Nelson, passaria os dias fazendo isso. 

Surpreendente. Buscar um exemplo do outro lado do muro que divide o blues da música country! Bela e humilde sacada de um instrumentista exuberante escolher o fraseado de um cantor. Mestres... sempre ensinando! 

(*)

Lembro de uma discussão que presenciei entre dois amigos guitarristas sobre quem era mais "blues", Luis Melodia ou Celso Blues Boy (como em todas as discussões superficiais, só um poderia prevalecer). 

Enquanto um dos amigos argumentava de forma literalista ("Pô, mas o Celso até tem blues boy no nome!"). Outro pensava de forma mais dialética, citando as raízes negras do grande Melodia. Para os dois debatedores, era só um papo de bar - nem devem mais se lembrar do que falaram - mas eu seguidamente me divirto transpondo este embate entre ortodoxia e heterodoxia para questões políticas, religiosas, estéticas... 

Seja A Bíblia, O Capital ou as celebobagens da semana, sempre há quem leve ao pé da letra e quem contextualize. Ambos erram e acertam. Como ondas que vêem e vão.

(*)

BB King tinha uma visão muito generosa sobre uma querela clássica: enquanto muitos blueseiros americanos reclamavam dos jovens ingleses dos anos 60 que faziam mais sucesso do que eles tocando blues, BB dizia-se grato pela popularização do estilo que aquela geração havia proporcionado. 

Na capa de um disco em pareceria com BB King, Eric Clapton (um daqueles jovens ingleses) aparece, humildemente, como motorista do velho blues man. Riding with the King. Boas energias emitidas cedo ou tarde retornam.

(*)

Lucille é o nome que BB King deu a sua guitarra, agora uma viúva silenciosa. Eu tive uma Gibson Lucille. Vermelha, o que é pouco comum; geralmente são pretas. Era do Lulu Santos, trocamos. Eu dei uma Gibson 350, ele me deu a Lucille e um Violão de 12 cordas. 

Nenhum dos dois instrumentos se sentiu muito à vontade aqui em casa. Dei o violão para o senhor que cuidava do nosso jardim. Ele precisava de um instrumento pra tocar na igreja. Ambos (ele e o violão) ficaram felizes. Eu também.

A Lucille, que tinha uma discreta assinatura do Lulu no corpo e, por isso, eu chamava Lulucille, passei para um colega. Não sei por onde anda. Espero que esteja feliz. 


bah : Apesar da minha inteligência mediana, o fato de, há 30 anos, viajar pelo Brasil fazendo música me dá uma percepção bastante abrangente do nosso país. 

E vejo um país diferente do que aparece nos pitacos superficiais dos FaceBootekos da vida. Nem tão ruim como uns vêem, nem tão bom como outros garantem. Muito mais complexo do que os dois lados imaginam na sua pressa de prevalecer nos bate-bocas digitais.

Não é uma complexidade paralisante, daquelas que nos fazem andar em círculos. Mas optei por não colocar ideias que tanto custei a costurar no liquidificador histérico das redes sociais. Só digo que, apesar das dificuldades, acredito num futuro melhor para todos nós. "Vamo que dá". 

Tô sendo muito otimista? Como não ser se, por exemplo, nesse fim de semana vou tocar em Recife e Fortaleza, duas cidades de uma região culturalmente riquíssima?! Quanta música maravilhosa, poesia, pensamento, etc... nasceram ali! (No sul também, meus conterrâneos, não fiquem com ciúmes hehehe).

Sim, há muito o que fazer. Mas ter o que fazer (ser possível) já é um início.

Algumas das muitas passagens por Recife.
( Também toquei na cidade em
1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993,
2000, 2005, 2006, 2011, 2012 e 2013. )
Algumas passagens por Fortaleza - 01
Algumas passagens por Fortaleza - 02
( Faltam fotos de 1987, 1988, 1989,
1990, 1991, 1992, 1993, 1994,
2000, 2004, 2005 e 2010. )
26mai2015

365


Segunda-feira chuvosa em PoA, 11 de maio. 

Ops, 11 de maio! Há exatamente um ano começavam, na serra gaúcha, as gravações do DVD inSULar. 

E no dia 30 deste mês, voltaremos ao Chevrolet Hall, em BH, exatamente um ano depois da gravação do show.

Já estou no modo comemoração. Justa comemoração pois este trabalho só gerou coisas boas, na sua invenção, na preparação, na execução... e continua gerando a cada volta do ponteiro.

Não sei se deveria, mas, como vocês são de casa... mostro algumas opções de capa que surgiram antes que batêsssemos o martelo na definitiva. Lembranças do futuro que a gente imaginava. 

Projetos Gráficos de Melissa Mattos
E vamos em frente, ainda há muito que fazer!

12mai2015

De repente

24 léguas de um dia que não vem
60 toneladas de um segundo em suspensão


Meu livro Nas Entrelinhas do Horizonte abre com um capítulo chamado O Dia Em Que Deixei De Ser Criança. Auto-explicativo. Na real, ali narro várias histórias pois foram muitos os dias em que deixei de ser criança. Tantos quantos os dias em que voltei a ser.

Mal tinha saído o livro e eu já havia me lembrado de outros exemplos que poderia ter citado... e continuo vivendo esses micro ritos de passagem. O que me faz pensar que é um capítulo sem fim.

(*)

Ray Manzarek disse ter presenciado o momento exato em que o espírito criativo abandonou seu companheiro do Doors, Jim Morrison. Em meio a um show, foi-se o brilho nos olhos.

(*)

Em meio a uma conversa banal sobre futebol, referindo-se a um zagueiro de longa carreira, um amigo veio com esta pérola: "Lembro exatamente do jogo em que ele envelheceu".

Manda o bom senso que a gente reconheça a frase como uma figura de linguagem. Evidentemente, trata-se de um zagueiro que vinha há anos administrando a gradual perda de velocidade e agilidade, até que não foi mais possível. Aí, as falhas começaram a ser mais constantes, etc...

Mas, tomado por um surto de realismo fantástico, viajei no sentido literal da frase, imaginando um zagueiro que entrasse no gramado jovem e, 90 minutos depois, saisse de campo um ancião. O futebol é mesmo campo fértil para exageros. A gente pode envelhecer dez anos ou mais em 45 minutos e voltar a ser criança num grito de gol.

(*)

"A subversão da noção de tempo nos momentos da quebra de encanto". Que tal parece, como título de tese no curso de Achologia? 

Uma infância cíclica, que se renova com o passar do tempo ou a ideia de que o envelhecimento e a fadiga não são frutos de um processo gradual, mas acontecem de repente, são conceitos de difícil defesa. Mas não deixa de ser interessante brincar com eles por uns momentos.

Alargar os laços da racionalidade que prendem a causa à consequência, num mundo tão prisioneiro da objetividade, pensar na vida como uma sucessão de pontos e não como uma linha contínua, pode ser interessante, ainda que assuste um pouco. Um exercício de humildade.

abraços
05mai2015

bah : É comum que eu passe os domingos zanzando de aeroporto em aeroporto no caminho de volta para casa depois dos shows de sexta e sábado. Apesar das horas em trânsito, são os poucos minutos de espera da bagagem na esteira que mais custam a passar.

Igual a quando a gente tá afim de ir ao banheiro. Pode aguentar um tempão, mas os poucos segundos no elevador, chegando em casa, parecem eternos, intransponíveis.

Putz, que papo chulo para acabar um texto, né? Perdão. Vou tentar melhorar para semana que vem. Se ela tiver 7 dias e todos eles tiverem 24 horas, talvez eu consiga.

tecnolorgia


Abaixo dois diagramas pro pessoal que curte equipamento (somos uma galera!) e com frequência me pergunta o que estou usando na tour inSULar.


1- instrumentos de cordas:

Nos shows, uso baixos de 4 e 6 cordas, além de uma doubleneck baixo/guitarra. 

Os baixos dividem  o mesmo sistema: depois de um pedal A/B que seleciona entre um baixo de 6 ou de 4 cordas, o sinal de audio passa por um afinador, um V-Wah Roland e um preamp Hartke Bass Attack. Daí o som vai para a mesa de som e o PA.

Na doubleneck (instrumento com dois braços que os falantes do inglês chamam dois pescoços pois a mão dos instrumentos eles chamam de cabeça (instrumentos sem mão como os Steinberger para eles são headless)), o baixo passa por um DI SanAmp antes de ir para a mesa e o PA; a guitarra, passa por uma pedaleira Boss GT10.


2- Synths


Uso sons de piano elétrico e órgão Hammond do teclado Nord.

Um controlador de pé Roland PK5 dispara sons do teclado Bass Station ou do Micko X50. Em qualquer dos casos, é o mesmo teclado que fica sobre o Nord e uso para fazer os baixos com a mão esquerda no set de teclados.

Por precaução (seguro morreu de velho!), ainda existe a possibilidade de um módulo de som JV 880 ser controlado pela PK5 ou por um teclado controlador Behringer.

O MicroKorg fica na frente, à minha direita, uso para fazer algumas camas e o vocoder no set de baixo.

O acordeon preto é um modelo aperfeiçoado do branco, com falantes (que o outro não tinha) e outras mehorias. 


3- Cabeça e coração

Aí é que o jogo é jogado e decidido.

abraços
01mai2015

bah: esqueci das harmônicas! Gosto das Hohner. Modelo Marine Band paras os tons G e D; Blues Harp para A e E. Não me perguntem por que essa  variação... não sei explicar =). 

doses homeopáticas, escala industrial


Passei a tarde de sábado conversando com o camarada Nando Peters. Objetivamente, o motivo da conversa era traçar planos para projetos futuros. Mas, minha arte/ofício é muito subjetiva. Nela, a objetividade vale bem menos do que no mundo real. Por isso, a conversa correu solta pelos mais diversos assuntos. A maioria dos quais, aparentemente, sem nada a ver com os tais planos. Aparentemente.

(*)

Lembrei da anedota sobre a diferença entre bandas americanas e inglesas: ambas marcam 4 horas de ensaio; mas os americanos conversam meia hora e tocam 3 horas e meia enquanto os ingleses ensaiam meia hora e conversam o resto do tempo.

Qualquer relação com a objetividade dos gringos e a subjetividade dos britânicos será mera coincidência?

(*)

Nando já participou da tour inSULar. Em Rio Branco-AC e Palmas-TO, num festival em que dividimos a noite com Sepultura. Ele também toca com Luciano Granja, que, por sua vez, já participou da tour inSULar em Vitória da Conquista, Bahia, num festival em que dividimos a noite com Saulo da banda Eva e Paula Fernandes.

Às vezes estamos no-centro-por-dentro-de-tudo-no-olho-do-furacão... mas precisamos de um papo aparentemente sem sentido para tropeçar no óbvio. Essa corrente de participações de guitarristas gaúchos tocando longe de casa e dividindo palco com artistas de estilos tão variados fez cair a ficha de quão ampla - geográfica e ambientalmente - esta sendo a estrada inSULar.

Há que ficar atento a esses fatos que nos servem de espelho, que nos fazem enxergar algo que está diante dos nossos olhos mas que, até então, não víamos.

(*)

Na gravação do disco A Revolta dos Dândis, eu tocava baixo fazia pouquíssimo tempo. Havia ficado com o Rickenbacker do Pitz (na troca, ele ficou com minha guitarra Ibanez Allan Holdsworth). Amplificador? Ainda não tinha.

A produção ligou de São Paulo perguntando o que eu achava de alugarem um Ampeg para as sessões. Pra não dar bandeira da minha inexperiência e da escassez de equipamentos de POA, fiz de conta que conhecia muito bem o equipamento que eu só tinha visto em fotos de bandas que curtia e respondi: "ótima ideia".

Meu coração disparou quando entrei no maravilhoso estúdio da RCA em Sampa. Tchê, que beleza: teto alto para gravar orquestra, tratamento acústico das paredes com madeira, pedras, espelhos, cortinas... pianos, órgãos, tímpanos e outros instrumentos espalhados pela sala... a onipresente logomarca do cachorrinho ouvindo gramofone... dava vontade de morar ali!

Disparado, meu coração quase parou de vez quando enxerguei, num canto da sala, um cabeçote Ampeg já ligado, com as válvulas irradiando a cor quente da eletricidade. Ele estava sobre uma enorme caixa, também Ampeg, com oito falantes de 10".

Foi um detalhe desta caixa que me fez entender várias coisas em uma fração de segundo: ela tinha, na sua base, duas rodas robustas. Atrás, na parte superior, havia uma barra cilíndrica de metal. Design para facilitar o transporte. Segurando na barra, inclinava-se a caixa, e ela virava o carrinho de carga de si mesma.

Eu, acostumado a tocar com pequenos amps, no meu quarto, sob o poster de alguma banda favorita, me dei conta de que minha música estava passando para a escala industrial. Ampla. Espalhada geográfica e ambientalmente. Um detalhe no desenho da caixa me serviu de espelho para ver o que estava na cara.

Achei o máximo, lógico: "vamos para o mundo"! Mas imediatamente tratei de fazer um pacto comigo mesmo: de manter sempre vivo, trazer sempre comigo, o menino que tocava no quarto olhando para posters de bandas geniais. Fosse qual fosse o caminho da minha estrada musical, em doses homeopáticas ou escala industrial.


bah: Um dos riscos do papo-auto-ajuda, tipo "lute pelos seus sonhos", é que, de tanto lutar, o cara pode esquecer de sonhá-los.
28abr2015

pontos fora da curva


Por mais que soe estranho em meio a pandemia de Síndrome de Peter Pan (a negação do amadurecimento) que assola o mundo, algo deve ser dito a favor da passagem do tempo: é divertido observar a dança das cadeiras.

Talvez este divertimento não seja suficiente para equilibrar a balança que tem, no outro prato, a fragilização do corpo, o cansaço da mente. Mas, hey, o que há fora do tempo? Uma eterna juventude já não seria juventude, né?

Às vezes, do nada, pintam umas lembranças que me fazem rir. Lembro de quando alguns caras me criticavam por compor baladas. Eles se orgulhavam de uma alegada "pureza", mantendo a fama de máu dia e noite. Mas só até ali... logo começaram a compor, não só baladas, mas qualquer coisa que o mercado pedisse. Engraçado.

Engraçado também eram os tempos em que diziam que minhas canções eram "música pra dançar", Dá pra acreditar? Certamente não nesses dias pós-DJ. Engraçado.

(*)

Sigo tocando meu barco nesse oceano ora turbulento ora calmo, aprendendo a me divertir só de olhar a espuma gerada pelo atrito do casco com a água. Aprendendo a distinguir o oceano da espuma.

(*)

Alguns artistas parecem sofrer muito com a própria trajetória, renegando fases, selecionando público, tentando domesticar a realidade - inutilmente: ela será sempre imprevisível; na maior parte das vezes, surpreendente.

Não sei se escreveram canções fora da curva ou se suas ideias é que fizeram uma curva. Certo é que eles têm todo o direito de fazer o que quiserem. Mesmo que seja uma engraçada tentativa de mudar o rastro de espuma que o barco deixa n'água. Como se o rastro fosse independente da trajetória do barco; como se a consequência pudesse ignorar sua causa. 


bah: estranho postar em dia de show (a essa hora devo estar tocando em Divinópolis, se você lê à meia-noite de segunda pra terça). Efeito colateral de Tiradentes. Bom feriado para todos! 

Na foto acima, os shows já confirmados da agenda inSULar. Há negociações com outras cidades em andamento. Quando confirmarem, aviso por aqui e nas redes sociais. 

Estás convidado/convidada a "se chegar" quando o barco passar por teu porto! Para deixarmos, juntos, um bonito rastro; véu branco no mar azul.
21abr2015

33,333333...


Baita fim de semana! Daqueles em que o show troca de marcha, sobe um degrau. 

Sexta, em Juiz de Fora, uma multidão empolgada e a alegria adicional de dividir a noite com os Paralamas do Sucesso. Vendo uma foto que fizemos, eu Bi e Barone, não pude deixar de notar a dignidade de nossas barbas e cabelos grisalhos. Modéstia à parte.


Sábado, em Campinas, novamente um público empolgado. Reconheço que Pouca Vogal não chegou a "entrar" em São Paulo. É um prazer enorme voltar a tocar mais frequentemente neste estado tão importante para minha história.

Estávamos indo para o show quando deu meia-noite. Ao fim da décima segunda badalada do sino, a van não se transformou em abóbora, mas Don Esteban "el flaco, o magro, el mago" Tavares recebeu vários telefonemas felicitando-o pelo aniversário.


Onde eu estava aos 33 (a idade de Cabral quando foi ao mar e de Jesus crucificado/ressuscitado)? Gravando o disco Minuano.

Deserto Freezer e Nuvem são canções do Minuano que o inSULar fez renascer na serra gaúcha. Re-nascer-na-serra, re-nas-cer-na-ser-ra... sons interessantes me levando ao sono, tirando-me daqui.

Minha cabeça gira, dando voltas pois, além de muito prazeroso e produtivo, o fim de semana foi cansativo. Dormi pouco no trajeto entre as duas cidades e nada entre o segundo show e o embarque para POA, no início da manhã de domingo.

Sonado, a única coisa de que me lembro do avião é que um cara caminhou pelo corredor atrapalhando o fluxo do embarque para perguntar aos pilotos na cabine: "Não tem ninguém deprimido aí, né?". Confesso que a brincadeira me deixou um pouco incomodado.

Ok, não é pra tanto: vou debitar o incômodo à minha privação de sono, à falta de graça da piada e à euforia que toma conta das pessoas pouco acostumadas a voar quando entram num avião. Talvez seja uma maneira de esconder o medo, sei lá. Quem sou eu para julgar?! Zzzzzzzzzz...

Acordei no pouso, segui como um zumbi para casa e dormi o dia inteiro. Despertei já na noite de domingo, com a casa escura e em silêncio. Descobri nas minhas timelines que meu time havia ganho, que as manifestações contra o governo levaram menos gente às ruas, se comparadas às anteriores, e que havia começado mais um programa de calouros na rede de TV aberta de maior audiência.

Sei que alguns dos meus ídolos seriam sumariamente gongados por júris ortodoxos ou pela "voz do povo". E que muitos nem aceitariam submeter-se a julgamentos artísticos. Mas espero que essa vitrine dê oportunidade a muita gente boa de mostrar seu valor. Sempre é louvável que se abra, nos canhões da mídia, espaço para a música feita aqui. 

Mas, na boa, não entendo a euforia que esses programas causam até em gente que diz não gostar. Eles me parecem aqueles campeonatos mundiais de futebol de areia que acontecem todos os meses. Distantes da vida real, seja ela uma Champions League ou o mais modesto dos campeonatos regionais. 

Acho que a vida real tem mais a ver com a barba grisalha do Bi. 
14abr2015


bah segunda-feira blues:  Eduardo e Günter se foram. Peço perdão pela intimidade do  uso dos primeiros nomes, mas a relação escritor/leitor dá o direito, né? Fica meu agradecimento por terem me feito pensar + sentir = viver belos momentos.

bah final feliz: Günter Grass nasceu em Gdansk... em Gdansk são feitos, à mão, os baixos Mayones. Eduardo Kusdra, representante da marca no Brasil, gentilmente, levou à Campinas alguns modelos para que eu desse uma olhada. Fim de semana legal.

Prest'enção


O zagueiro entra na dividida de corpo mole e perde a jogada obrigando o goleiro a fazer uma defesa arriscada para salvar a situação. Este, ao mesmo tempo em que ergue-se do chão com a bola nos braços - ocupando toda a tela da TV - grita ao colega vacilão: "Prest'enção, caramba".

A frase foi a melhor coisa que aconteceu no modorrento jogo de domingo.

Ok, posso estar exagerando por hipersensibilidade ao verbo. Afinal, passo a vida prestando atenção na métrica, no som e significado das palavras. Construí uma sólida carreira assim. Mas o jogo foi ruim mesmo.

(*)

Gosto da contração "prest'enção". Revela bem a urgência ansiosa do significado e esconde palavras outras no seu interior: pré, extensão, tensão...

Mas o que me ganhou na frase foi o "caramba" pois, quando o goleiro armou as duas primeiras sílabas, eu poderia apostar tudo que tenho que ele diria "caralho". É o padrão na correria do jogo, quando a adrenalina está no comando.

Além do significado mais enfático, a fonética também justificaria o palavrão: o RÁ aberto de caRAlho é mais expansivo do que o RÃ fanho de caRAMba. O próprio O se presta mais a um gran finale do que a letra A. 

Por isso, a surpresa: contra toda a expectativa, o goleiro falou caramba. Melhor assim. Como quando a gente abre a geladeira e descobre que os monótonos tomates eram, na verdade, deliciosos caquis.

Nesses tempos em que as pessoas estão se carneando histéricamente nas timelines, em que toda e qualquer paixão parece álibi razoável para todo e qualquer absurdo, melhor ouvir caramba do que caralho.

abraços
07abr2015


bah-nada-a-ver-com-o-texto: a querida ZiPitz, que acompanha minhas andanças por Minas desde a segunda metade dos anos 90, mandou a foto abaixo. Junto com ela, a informação: foi tirada em Divinópolis no dia 20 de abril de 1997. E daí? Daí que estarei de volta à cidade em 20 de abril de 2015! Caraca! Caramba! Coincidência?

Valeu, Zee Peaches! Pegar o pulo com as antigas máquinas com filme, esperar a revelação pra ver o que rolou... outros tempos, né? Mas a paixão pela música segue igual! Coincide.

Gessinger Trio
Divinópolis-MG
20abr1997

setlist:
1- Irradiação Fóssil
2- Sopa de Letrinhas
3- A Ferro e Fogo
4- A Promessa
5- A Onda
6- Vida Real
7- Terra de Gigantes
8- Bola da Vez
9- O Preço
10- Parabólica
11- Piano Bar
12- Freud Flintstone
13- Infinita Highway
14- Sem você (é Foda)
15- Toda Forma de Poder
16- Causa Mortis


Caramba, caraca!
De Fé não estava no setlist!
Será que ficou pro bis?
Acho improvável.
Não tenho anotado pois
escolhia o bis na hora.

Mas este ano vai rolar.
As músicas sabem esperar seu tempo.

Agenda atualizada



10abr : Juiz de Fora-MG
La Rocca

11abr : Campinas-SP
Campinas Hall

18abr : Piumhi-MG
Piumhi Tênis Clube

20abr : Divinópolis-MG
Espaço DaVinci

08mai : Cascavel-PR
Cowboy Saloon

09mai : Francisco Beltrão-PR
Centro de Eventos Marabá

15mai : São José do Rio Preto-SP
Clube de Campo Monte Líbano

16mai : Jundiaí-SP
Clube Jundiaiense

22mai : Recife-PE
Chevrolet Hall

23mai : Fortaleza-CE
Dragão do Mar

30mai : Belo Horizonte-MG
Chevrolet Hall

08ago : Goiânia-GO
Atlanta Music Hall

12set : Brasília-DF
Minas Tênis Clube

Outono em POA


Por conta da canção Outono em PoA, fui convidado a gravar depoimento para uma TV local na semana em que a cidade aniversariou e a estação das folhas amareladas chegou.

É comum me chamarem quando acham que um evento se relaciona a alguma das minhas canções; sejam programas esportivos (algo relacionado ao Grêmio), comportamentais (sempre me ligam no Dia Mundial do Rock) e até (pásmem) nas mudanças de papa (sempre há quem se lembre d'O Papa é Pop). 

Nunca me sinto muito à vontade nessas ocasiões por achar que falta, nas minhas composições, a unidimensionalidade dos hinos. Hinos não têm dúvidas. Eu as tenho. Mais do que certezas.

Mas tudo bem, ninguém, além de mim, tem obrigação de prestar atenção nas filigranas de minhas canções. E, nesse caso específico, a matéria foi super-bacana e bem agradável de fazer. 


OUTONO EM PORTO ALEGRE

nem tudo está perdido
nem sinal de pedra no peito
o horóscopo do jornal arriscou “um belo dia”
liguei o rádio na hora certa
era a canção que eu queria

nem tudo está perdido
tudo em paz no reino da química
ninguém me telefonou enquanto eu dormia
sonhei com meu pai e ele sorria
chimarrão pra acordar era só o que eu queria

nem tudo está perdido
outono em Porto Alegre
sou o dono dos meus passos sobre folhas mortas
o mundo fica para outro dia
andar por aí era tudo que eu queria

veja você... que surpresa... que coisa incrível!
descobri que sou feliz!
veja você... quem diria... que ironia!
sem você eu sou feliz!
veja você... outono em Porto Alegre
me faz feliz

Há uma tradição na música popular (notadamente americana) de utilizar a passagem das estações como metáfora do ciclo da vida. Nestes casos, geralmente, outono é vinculado à melancólia, início da decadência que culmina no inverno. Mas, ciclos são cíclicos, né? (dããã!). Por isso, a noção de decadência final não faz muito sentido para mim. Escrevi uma canção tentando absolver o outono deste karma.

Eu gosto da estação. Equidistante dos extremados verão e inverno que, apesar de opostos, são muito parecidos: estações onde o corpo está muito presente nas exigências de aquecimento ou alívio de calor. E a primavera... confesso que, com suas cores berrando e seus pássaros cantando cada vez mais cedo, me parece um pouco exagerada. 

O outono, na falta de alguma obviedade que o caracterize, é mais propício a devaneios espirituais. Há, logo no início, a Páscoa; a Paixão, martírio e ressurreição, é um paradigma cristão que relativiza o corpo e tudo que é material. Uma questão sempre ambígua na cultura ocidental, independente de se professar ou não a crença.

Ops, peraí! Como diria Eddie Brickel e seus New Bohemians, Shove me in the shallow water before you get too deep! Não me deixe ficar muito profundo!

Gosto do outono de forma simples, descomplicada. A temperatura fica mais amena, o sol entra em casa de forma mais penetrante mas menos violenta, traçando novos desenhos na sala a partir do retângulo das janelas.

Para quem tem olhar atento, as folhas das árvores começam a cair lentamente, deixando mais aparente a estrutura dos galhos. Fica mais clara a relação entre o que é perene e o que é transitório. No próximo ano, serão outras as folhas na mesma árvore. Mudando de escala, chegará o tempo em que será outra árvore no mesmo chão. A vida e seu eterno bailado entre o que passa e o que permanece.

Motivos bobos (uma canção no rádio, um sonho que mate a saudade - um mate! -, um telefone em silêncio, um passeio sobre folhas secas) têm mais chances de fazer a diferença no outono e, (quem diria!), me fazer feliz.

É esse o papo da letra de Outono em Porto Alegre, o renascimento surpreendente, a partir de coisas aparentemente insignificantes, como uma rajada de vento e a passagem de uma nuvem em frente ao sol, nos banhando de luz-sombra-luz... bobagens. Mas bobagens também contam. Há estações que, ainda bem, nos deixam mais sensíveis a elas.

(*)

E na estrada, passada a excitação do lançamento do inSULar, o que me fará feliz neste outono? Simples: a tentativa de fazer, a cada noite, o melhor show de todos os tempos. Seja qual for o local, as músicas, o cenário, a formação... ou a estação.
abraços
01abr1015
Bah, pessoal, sai de casa às 8 da matina e voltei às 22, depois de passar o dia no Rio de Janeiro gravando um programa bacana. Em breve avisarei onde e quando vai ao ar. Já adianto que, além do papo legal, adorei tocar, entre outras canções, Negro Amor e Quando o Carnaval Chegar; músicas que não tocava há um tempão.

Por isso não consegui arredondar o texto para hoje. Mas sei exatamente o que quero dizer e prometo postar na meia-noite de amanhã, ok? Pra variar um pouco: desta vez, quando terça virar quarta.

Abraços!

Lembro como se fosse amanhã

Quem me conhece sabe da minha dificuldade para lembrar fisionomias. Tenho a mesma deficiência em relação a datas. Lembrar de aniversários exige de mim cálculos que beiram o esoterismo. Talvez por isso me divirta tanto rever as anotações que zelosamente guardo dos eventos relacionados à minha carreira. Há sempre uma discrepância entre o que a memória sugere e o que os fatos afirmam.

Pra colocar um tempêro nessa observação, poderia cambiar os verbos e divertir-me com a diferença entre o que os fatos sugerem e o que a memória afirma. Seria um equívoco? Tem certeza?

Fique tranquilo: não sou obcecado pelo passado. Pelo contrário: "passou? passou!". Mantenho arquivos pra não cair na armadilha da impessoalidade armada por anos de estradas, hotéis, aeroportos e palcos. É um sinal de respeito saber quando estive em determinada cidade anteriormente. E enriquece de significados a experiência no aqui e agora.

(*)

Num post anterior, ao buscar uma foto da entrega do primeiro disco de ouro, notei que a data era 24 de março de 1987. O que eu estaria fazendo nos outros vintequatros-de-março da minha carreira Pesquisando, descobri que, em muitos deles, estava fazendo shows. Em alguns, estava gravando programas. No 24mar de 1999 fazia as fotos da capa do !Tchau Radar!. 

O 24mar que mais me surpreendeu foi o de 2000: a primeira noite de gravação do 10.000 Destinos. Surpreendeu-me não pela data em si, mas por já terem se passado 15 anos! Ah, os fatos e a memória! Que dupla trapalhona!

(*)

Não consigo analisar e comparar friamente registros de performances ao vivo. Para mim, cada noite é única e tem seus mistérios, virtudes e defeitos. Muitas vezes os defeitos são o que elas têm de melhor e as virtudes enchem um pouco meu saco.

Como tradicionalmente fazia nos discos ao vivo, coloquei no 10.000 Destinos duas composições inéditas gravadas em estúdio: Números e Novos Horizontes. Delas posso afirmar, com certeza, que estão entre minhas favoritas. 

Muitas vezes estas canções inéditas em discos que trazem regravações ao vivo me deixam a sensação de oportunidade perdida. Até bate remorso de não tê-las protegido da força das canções já conhecidas.

Mas o sentimento logo passa e sobrevêm a certeza de que elas encontrarão os corações a que estão destinadas. Se, por estarem em meio a hits, a porta de entrada se limitar a ouvidos mais sensíveis e menos passivos, tanto melhor!

{ Escalando este time: Alívio Imediato, Náu à Deriva, Mapas do Acaso, ?Quanto Vale a Vida?, Às Vezes Nunca, Realidade Virtual, Números, Novos Horizontes, Armas Químicas e Poemas, Outras Frequências, Vertical, Guantánamo, Quebra-cabeça, No Meio de Tudo Você, Não Consigo Odiar Ninguém, Cinza, Coração Blindado, Faz de Conta, Depois da Curva, Breve, Além da Máscara, Pra Quem Gosta de Nós, Tententender, Pouca Vogal, O Voo do Besouro, A Força do Silêncio, Milonga Orientao. 

Sem falsa modéstia, nada mal, né? Nos casos das inéditas do Novos Horizontes e do Pouca Vogal, penso que sobreviveriam dignamente como um disco autônomo. Para mim, ao contrário da visão corrente, as regravações ao vivo é que são um bônus nestes casos. } 

Voltando às gravações do 10.000 Destinos: há algum sobrevivente daquelas noites aqui e agora, além deste que vos escreve em... 24mar2015? 

24mar2000
Pallace, São Paulo
24mar1987
Metropolis, Rio de Janeiro

Curvas e chuvas


Os shows do fim de semana levaram-me a passar por duas vezes pela curva onde, há 20 anos, o carro em que eu estava capotou.

Não, não se preocupe: não será um texto de memórias melancólicas. Nada contra lembranças, nem contra a melancolia, claro. O caso é que, da janela do ônibus, observei atento a estrada e comprovei que não estou mais em nenhuma daquelas curvas.

Estou aqui, agora. Claro, trago comigo as cicatrizes, todas. Mas cicatrizes também mudam, a mesma é outra a cada vez que olho. Elas testemunham o passado, mas (assim como sonhos de futuro) também só existem aqui e agora. 

Ok, ok, talvez eu exagere. Estar aqui e agora não é tão simples quanto parece. É algo a ser exercitado. Às vezes é necessário dizer (gritar) a nós mesmos: "Não empurra!", quando a mente insiste em estar onde ainda não chegamos. Ou "Te mexe!", quando ela insiste em permanecer onde já não estamos.

(*)

Dias desses, caminhando do estúdio para casa, fui pego por uma dessas surpreendentes chuvas de verão. Gosto de andar na chuva, seguiria caminhando não fossem os papéis com anotações de arranjos que eu levava e que não resistiriam àquela quantidade de água.

Parei sob a proteção de uma marquise. Pensei em aproveitar o ócio forçado para esvaziar a cabeça ao som dos pingos da chuva. Que dificuldade! Eu não tinha compromisso nenhum para as próximas horas, poderia ficar ali o tempo que quisesse, o ambiente era agradável; mas, que dificuldade simplesmente estar!

Instintivamente levei a mão ao bolso que, vazio, me lembrou que eu havia deixado o smartphone em casa justamente para evitar o excesso de conexões desconectadas que não unem pontos, só nos anestesiam para que o tempo passe mais rápido, tirando-nos daqui e escondendo o agora.

Cogitei recomeçar a caminhada mesmo na chuva... tentando me convencer de que, se perdesse as anotações que tinha feito e não me lembrasse delas, isso significaria que não eram ideias tão boas assim.

(*)

A consciência de estar ansioso aumenta a ansiedade 
assim como, na alta madrugada, 
cada olhada no display vermelho do rádio-relógio 
tira mais um naco de sono.
...
Já vi de tudo em futebol, 
menos um time fazer o segundo gol antes do primeiro.

(*)

A chuva foi parando, mais e mais carros passavam com o limpador de para-brisas desligado, sinal de que era hora de seguir. Seguir exercitando o aqui e agora. A cada passo. Sem passado nem futuro, um passo de cada vez. Na necessária esperança de que tudo se harmonize. Algo a ser exercitado.
17mar2015

Seguir Viagem

Inevitável que uma semana com shows em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, cidades onde moro e morei, fosse pródiga em recordações. Circular por ruas percorridas em outros tempos e situações, rever conhecidos nas rádios, TVs, camarins, palcos e esquinas; tudo reverbera de forma especial.

Felizmente, são pouquíssimas as lembranças melancólicas se comparadas aos inúmeros revivals cheios de energia boa e vontade/necessidade de seguir viagem, tirar os pés do chão.

As imagens passam e, por vezes, levam tempo para ganhar sentido(s). É comum que a ficha só caia quando as imagens já não estão nos olhos, só na mente.

No camarim em PoA, eu e Clara fizemos uma foto brincando com a estampa da camiseta dela e minha pose em tempo real. Horas depois, na madrugada silenciosa, enquanto revia a foto, vários significados reverberavam como o quadriculado do piso e da camisa: o ano de 92 em que Clara nasceu e o disco foi lançado... Parabólica... hey, eu disse "POSE em tempo real"?


Nunca fiquei com os discos de ouro que ganhei durante minha carreira. A medida em que ganhava, dava para familiares como uma forma de agradecimento pelo carinho de vida inteira.

Um pouco, também, por não querer me impressionar com um objeto na parede a me lembrar, em cada mirada, dos números do sucesso. É claro que é uma coisa legal, mas é bom que seja esquecida (talvez isso não seja tão claro, né? o que faço com esses números?).

Quando estava recolhendo material pro livro Pra Ser Sincero, pedi os discos emprestado para fazer uma foto. Depois, por serem objetos frágeis e difíceis de transportar, fui me enrolando para devolver. O tempo foi passando e os parentes colocaram quadros no pedaço da parede que havia ficado vazio...

... um dia fiquei sabendo, através do email de um fã, que o DVD Novos Horizontes havia chegado ao status de "ouro". O fã (desculpe, não lembro o nome) havia visto no site da associação de produtores fonográficos que controla isso.

Achei sintomático do declínio da indústria fonográfica que a gravadora nem tenha me avisado e fui tomado por um carinho especial por esse disco de ouro inexistente, que era só um email. De brincadeira, peguei um porta-retratos, recortei a capa do DVD e construi um disco de ouro. Self made. Do it yourself, como diriam os punks. Ganhei o campeonato e não me deram a taça? Pois aqui está o troféu!

Na parede, ele era o patinho feio ao lado dos discos de ouro feitos por profissionais. A partir dele comecei, aos poucos, a dar mais e mais valor a todos. Perdi o medo deles. Comecei a encarar aqueles objetos como portais para acessar, na imaginação, cada uma das centenas de milhares de pessoas que dedicaram tempo, dinheiro e, principalmente, carinho e respeito ao meu trabalho e...

... já avisei minha família que não devolverei os discos de ouro. Agora eles estão em casa!

humildemente
no seu canto
abaixo do baixo Tobias
- puta som! -
passa seus dias
acima do amp Rocktron
o DVD de Ouro
pós-industrial
tosco e artesanal
forte e verdadeiro
discaço
que nos momentos de mais cansaço
julguei ser o derradeiro
PQP
que erro grosseiro:
a viagem seguiu,
companheiro!
Dos 12 discos de ouro,
só tenho fotos da entrega do
LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS
e do
10.000 DESTINOS...

... e desta épica noite carioca.
bah: quero compartilhar a felicidade desta conquista com todos que colaboraram pra realização do inSULar Ao Vivo com sua arte e/ou seu ofício e/ou sua energia boa. Estão todos convidados para seguir viagem!
10mar2015

ops...

... hoje não vai rolar o texto da semana pois a náu inSULar ganhou mais esse maluco tripulante:


Estamos nos conhecendo. Bem vindo(s) a bordo!

abraços
de dois braços
03mar2015

Encontro na montanha


No feriado, subi a serra em busca de sossego. A trilha sonora na estrada foi o disco que comemora 50 anos de carreira do Luiz Carlos Borges, projeto do qual tive a honra de participar. Quando ele me convidou, sugeri que cantássemos Encontro com a Milonga, uma composição inspirada - e muito bem escrita - em que o mestre fala da relação do músico com sua arte/ofício:

ouvi dizer que a milonga 
andava com a espinha torta
ouvi dizer que a milonga 
andava com a espinha torta
e até ouvi comentários 
que a milonga estava morta

então quem foi que esta noite 
veio golpear minha porta?
então quem foi que esta noite 
veio golpear minha porta?

acordei de madrugada 
inquieto e meio nervoso
e fui terminar o pouso 
abraçado na guitarra

parecia uma fanfarra 
a mescla de corda e voz
uma milonga entre nós 
e eu grudado na guitarra

só lá pelas quatro e meia 
já na madrugada longa
eu controlei a milonga 
sem entortar a harmonia

enquanto ela me dizia 
num tom grave, mas sincero
"ou tu canta como eu quero 
ou não vê clarear o dia"

"tum tum tum, tum tum tum" 
a milonga repetia
e eu não chorava nem ria 
com os olhos que eram um braseiro

mas quem nasce milongueiro 
mesmo com a vida num fio
não refuga desafio 
e nunca corre primeiro

as horas foram passando 
e eu já parecia outro
ela viu que eu era potro 
mas disse "não te amedronta"

"ninguém venceu, 
faz de conta que aqui nada se passou"
mas quando o sol apontou 
eu tinha a milonga pronta!

e ainda meio cansado 
depois desse pega-e-solta
com jeito, campeei a volta 
antes que ela fosse embora

e perguntei sem demora 
porque sou curioso assim
"conta em segredo pra mim, 
onde é que a milonga mora?"

e a milonga então me disse 
"não é segredo, parceiro
já morei com um missioneiro
que tinha n'alma um violão"

"eu durmo em qualquer galpão 
e desperto com a boieira
mas, se tu for da fronteira
eu moro em teu coração"

e não pude mais contê-la 
quando enveredou pra porta
me gritando "eu não tô morta 
e pra frente há muita lida"

"por ora estou de partida 
a razão pouco me importa
mas volto a golpear tua porta
porque teu rancho tem vida"

nem cuidei de despedida 
senão o pranto me agarra
afinei bem a guitarra 
e num dedilhado assim

pelo pago me perdi 
conforme a milonga manda
eu não sei onde ela anda 
mas foi quem me trouxe aqui
eu não sei onde ela anda 
mas foi quem me trouxe aqui

ENCONTRO COM A MILONGA 
(Luiz Carlos Borges)



Serra, madrugada, milonga, Borges... inevitável que viessem lembranças da gravação do set acústico do inSULar. Duas noites maravilhosas.

Na vinícola que nos serviu de locação (um abraço aos amigos da Valduga!) havia algumas cabanas para hospedagem. Por não serem suficientes para toda a equipe, decidimos que eu ficaria ali com os convidados enquanto a equipe pernoitaria em Bento Gonçalves. Mas, finalizadas as gravações, Duca, Borges e Bebeto preferiram descer a serra para dormir em casa. Fiquei sozinho nas cabanas. 

Como dormir depois de tudo que rolou? Impossível! A cabeça, a milhão, tentava pensar tudo ao mesmo tempo. A memória repassava os melhores takes enquanto outra parte do cérebro já estava lá na frente, planejando mixagens e edição.

No meio desse turbilhão, ouvi um CLIC e o quarto ficou totalmente escuro. Cheguei à janela tropeçando e descobri que não era só no quarto. A falta de luz era geral. Ainda que, lá fora, não fizesse muita diferença: era um enorme parreiral com raras lâmpadas e a lua (que, felizmente, foi registrada no DVD!) generosamente iluminava a noite. Sem luz, tudo ficava mais claro, à medida em que os olhos desmamavam da eletricidade.

Coloquei um casaco e voltei ao espaço onde, um par de horas antes, havia rolado a gravação. O equipamento já tinha sido retirado e não havia mais ninguém ali. Sentei-me no chão, escorado num barril de vinho, e vivi, calado e inerte, um momento de rara intensidade. Coisas aparentemente desconexas começaram a fazer sentido e alguns fantasmas revelaram sua patética inexistência.

A adrenalina foi baixando enquanto imagens se revezavam harmoniosamente na minha cabeça: meu primeiro violão, a pasta plástica abarrotada de poesia pueril, os vinís da minha adolescência, as várias fases da minha carreira, os músicos talentosos com quem tive o prazer de tocar, os vários palcos, hotéis, cidades... assisti a tudo como se fossem alas de uma escola de samba lisérgica a desfilar ao som de uma balada do King Crimson.


De volta ao presente: neste carnaval de 2015 também tive uma dessas epifanias. À noite, na escuridão branca da montanha imersa em nuvens; tentando, em vão, sintonizar meu velho rádio de seis pilhas pequenas e antena torta.

A cada movimento do aparelho, por menor que fosse, embaralhavam-se as estações. Um locutor argentino invadia a polca de uma banda folclórica alemã silenciado por um pastor e fragmentos do que deve ser o que chamam de sertanejo universitário.

Coisas desconexas, fantasmas. Tudo envolto em muita estática. Uma metáfora do mundo ruidoso, multi-facetado e fragmentado ao qual temos que (tentar) dar sentido. Cada um tem sua forma de buscar este sentido. Música é a minha. Ouvi dizer que ela estava com a espinha torta. Então, quem foi que, esta noite, veio golpear minha porta?

24fev2015