Além do sorriso default (145)

Bah inicial: terminei o post da semana passada com a promessa de escrever sobre ideias que me passaram pela cabeça enquanto eu montava - mal e porcamente - dois gaveteiros. "Passar pela cabeça" é uma expressão precisa pois nenhuma das ideias ficou lá dentro tempo suficiente para sair articulada, com início, meio e fim; pelo que, desde já, peço desculpas. Aí vai:


Sigo perseguindo o AMOR com todas as letras maiúsculas alardeado em poemas épicos, nas maiores sinfonias e pinturas, na boa política e na verdadeira religião. Amor altruísta, absoluto, irrestrito e impessoal. À vida, ao ser humano, a ideias e ideais, a tudo e todos.

Coleciono fracassos nessa busca. Como o burrinho da anedota que tenta alcançar uma cenoura que paira a um palmo do seu nariz, sem saber que ela está presa numa vara, por sua vez, presa nele mesmo. A cada passo que avança, um passo ela se afasta. Dizem que é da natureza das utopias serem inalcançáveis. Talvez por isso eu não traga (e não leve muita fé em quem traz) sempre no rosto um sorriso default. 

Consola-me o fato de ter conhecido alguns amores mais humildes, parciais. Amores imperfeitos, de carne, osso e devaneios. Conheço - acho que conheço - o amor de filho, o paternal, o de parceiro, sensual... todos, segundo os materialistas, com uma razão prática para existir (passar o maior número de genes para a geração seguinte, defender a prole, etc...).

Será? Desconfio que não, mas não tenho argumentos para contrapor. Nem vontade de argumentar eu tenho. Entrar em contato com coisas que se ama (música, por exemplo) faz com que o ato de falar a respeito fique insignificante.

E entre um parafuso e outro mal colocado no gaveteiro, me dei conta de que não é tão pouco assim o amor que conheço. Há muitos que nem isso sentem. Talvez o todo esteja nas partes e estes pequenos amores espelhem (espalhem!) o grande amor. Na pior das hipóteses, saber o que está faltando pode ser o primeiro passo.

Mas afinal, o que esse papo tem a ver com o móvel que sofrivelmente montei? Ué, quem disse que a chave tem que ter algo a ver com a sala? Certas atividades (para mim: caminhar, jogar tênis, ouvir música, tomar um mate solito...) abrem a porta. Favorecem insights, a intuição. Na real, trata-se de olhar para dentro, para um desconhecido que já conhecemos.
15abr2014

em conserto (desta vez com S mesmo) - 144

Próximo ao topo na lista de artes/ofícios que admiro está a marcenaria. Suponho que muito do fascínio venha da minha total falta de talento para a coisa. Sou um desastre nos mais insignificantes consertos caseiros. Para trocar uma lâmpada, preciso de um manual. Mesmo assim, é possível que ela não acenda e que o manual desapareça antes mesmo de ser lido.

Desde muito cedo, revelei um enorme talento para estragar brinquedos e uma total incapacidade de consertá-los. Com o passar do tempo, este karma migrou paras as canetas de nanquim na faculdade. Depois, para os instrumentos musicais de minha carrreira/missão. Falando em instrumentos: luthiers estão no topo do topo daquela lista! Um refinamento da carpintaria e marcenaria.

Que maravilha deve ser criar elegantes e funcionais objetos a partir da madeira morta! Uma forma de redenção, trazê-la de volta à vida. Talvez esteja aí outra fonte do fascínio: impregnar de espírito um objeto; transformar um sonho em algo físico.

Há ainda, como provável fonte do fascínio, a figura bíblica de José, o carpinteiro. O próprio Jesus histórico teria sido seu aprendiz na arte/ofício. Em meio às palavras e costumes incomuns dos relatos bíblicos, "carpinteiro" era algo que a criança que eu era podia entender nos sermões da missa dominical.


Ok, o plano era aproveitar a folga nos shows para mergulhar nos preparativos do DVD. Mas, sabe como é, por mais elástica que seja a mente, há uma hora em que, de tão esticada, ela enrijece e a gente começa a andar em círculos. Hora de abrir as janelas, deixar o ar circular.

Resolvi espairecer montando dois móveis para meu estúdio. Coisa simples. Ao menos para os outros. Conhecendo meu histórico (tipo: fazer 5 furos e estragar a furadeira pra pendurar um singelo quadro), o pessoal aqui de casa sugeriu que eu chamasse mão de obra especializada. Aí virou questão de honra! Ademais, argumentei, seria um bom exercício mental, sempre se aprende algo. Zen e a arte de montar gaveteiros... 

Assim passei o fim de semana manejando erraticamente ferramentas inapropriadas (outra característica de quem não é do ramo: não ter as ferramentas certas; causa ou consequência?). O resultado não foi surpresa: bem ruinzinho!

Tudo bem, ao menos aproveitei o tempo da montagem para ouvir discos inspiradores que há muito não ouvia. E pintou esta crônica. Além de alguns insights interessantes... mas estes serão assunto de um outro texto.
08abr2014

selfies - 143

Em 1994, o ministro da Fazenda estava sendo entrevistado num programa de TV e, no intervalo entre dois blocos, confidenciou ao repórter o que pensava sobre a divulgação de dados da economia: "o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". A frase vazou, inadvertidamente foi ao ar. A oposição alardeou e o vacilo resultou na renúncia do ministro.

O imbróglio ficou conhecido como "o escândalo da parabólica". Hoje, parece um motivo pequeno para tanta repercussão se comparado às falcatruas que aumentam em quantidade e gravidade a cada ano, né? Hey, será que aumentam mesmo ou só ficam mais aparentes em tempos de maior transparência?

(*)

Na semana passada, a manchete de uma coluna de fofocas criticava uma atriz por ter comparecido a um evento sem maquiagem. Nos mesmos dias, causou alvoroço na www uma foto da Lucélia Santos andando de ônibus. Serão esses os novos pecados mortais no mundo midiático que se quer sem religião? Aparecer de cara lavada e usar transporte público?

(*)

A edição - o jogo de luz e sombra, revelar e esconder - faz parte da vida de todos. Turbinada por perfis virtuais, num mundo espetacularizado, essa realidade (por vezes irreal) é potencializada. Qualquer formatura de colégio, hoje, é mais produzida do que os shows que os Beatles fizeram. Qualquer propaganda de desodorante, hoje, envolve mais grana e produção do que toda a filmografia do Fellini.

Fiquem tranquilos, não vou cair no blá blá blá sobre como as coisas são piores hoje. Não acho que sejam. E esse papo sempre tem como subtexto a ideia de que a culpa é dos outros, mi mi mi...

... pelo contrário: me pergunto até que ponto não somos nós - artistas - que, glamourisando demasiadamente nossa arte/ofício criamos a falsa ideia de que vivemos todos no Castelo de Caras e dirigimos, todos, um Camaro Amarelo. Sempre sorrindo.

(*)

Sintomático que eu tenha juntado estes fatos no momento em que me preparo pra gravar mais um DVD Ao Vivo. Escolhas, edição, luz e sombra, revelar e esconder... 

É bom que retoques nos deixem mais perto do que gostaríamos de ser. É um perigo que eles nos afastem do que realmente somos. O que seria da arte sem humanidade? O que seria dela se fosse só humanidade?

Ok, melhor parar de encher o saco de vocês com minhas questões e voltar ao ensaio... afinal, quem deve falar é minha música.

céufie

abraços
01abr2014

mais uma grande noite no horizonte (142)

Ufa! Finalmente posso anunciar local e data da gravação do DVD da tour Insular!

São tantas as variáveis na escolha que a própria palavra "escolha" parece inadequada. Há que equilibrar rigor e flexibilidade na produção de um evento desses. Li num manual de tênis (ah, como chovia em POA quando comecei a jogar! ler a respeito era uma forma de enganar a fissura de estar na quadra) que se deve segurar a raquete como se fosse um pássaro: com firmeza para que não fuja e delicadeza para não machucar o bicho. Muita tensão engessa o gesto, muita flexibilidade o deixa impreciso. Vale para várias coisas na vida. Força e delicadeza, sonho e precisão.

Neste caso específico, acho que o universo conspirou. A favor. O destino falou e a bússola apontou Belo Horizonte. 30mai, uma sexta feita, no Chevrolet Hall.

BH - Chevrolet Hall - 2006
BH - Chevrolet Hall - 2013
Desnecessário falar da minha relação com a cidade, né? Escrevi a respeito aqui quando fiz o quinquagésimo show em BH e o texto já precisa ser atualizado com duas passagens incríveis do Insular

Meu histórico de DVDs já tem Rio (Filmes de Guerra, Canções de Amor), São Paulo (10.000 Destinos, Acústico MTV, Novos Horizontes) e POA (POucA Vogal). Tava mesmo na hora de BH! Há outras praças onde também seria bacana gravar. Mas, hey, espero que não seja o último!



Em BH vamos registrar o power-trio. Tenho muito orgulho do som que eu, Tavares e Rafa estamos fazendo. São caras que sentem a música com inteligência e pensam o som com emoção.

Além do show, o DVD vai trazer algumas canções gravadas na serra gaúcha num ambiente acústico: eu, Paulinho Goulart e Rafa formaremos o núcleo que vai contar com a participação dos amigos Duca, Borges e Bebeto. Acho que o programa final vai traçar um panorama legal do universo Insular. Conto, como sempre, com a energia boa e fundamental de vocês! No vácuo não há som.

abraços
25mar2014

A-ver-a-ci-da-de (141)

Nesta semana volto a me apresentar em São Paulo, desta vez com o INSULAR. Mesmo que as noções do que seja centro e periferia estejam cada vez mais nebulosas desde que o mundo virtual colocou uma pulga atrás da orelha do mundo físico, para quem vem de longe demais das capitais chegar à Sampa ainda desperta vários significados. Sinatra canta como ninguém um desses significados: if I can make it there, I'll make it anywhere.

Uma prova de fogo. Não em relação ao público, que, para cada artista, resguardadas as nuances regionais, é muito parecido em todo lugar (uma família espiritual); mais pela dinâmica imposta pela grandiosa escala da cidade.

Quando comecei minha jornada por palcos, estúdios, hotéis e aeroportos, ainda era dominante a noção de "eixo Rio/São Paulo". Os clichês de tambor cultural e locomotiva do país acompanhavam frequentemente a citação dos dois centros. O Rio, com sua permanente inquietação, nos percebeu antes. Sampa, com solidez, trouxe firmeza.

Abaixo, direto dos meus arquivos implacáveis, infos da primeira chegada à Sampa, em março de 1986 (coincidência o 21mar, né?).



(Sai Sinatra e entra um samba na rádio da minha cabeça: eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho / alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho.)

O local dos shows era pequeno, mas era onde as bandas do incipiente BRock se apresentavam. E era incrível fazer parte da cena! Fazíamos 2 entradas de meia hora por noite. Ainda não tínhamos lançado o primeiro disco (LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS foi gravado em maio e saiu em outubro daquele ano). Ao rever este setlist me chama atenção a ausência de Toda Forma de Poder. Isso testemunha a surpresa que foi o estouro da canção quando lançada.

À época, já havíamos construído um público bacana no sul. Tocávamos muito no interior, lotando muitos clubes e alguns ginásios. O momento era excitante, havia ouvidos generosos alimentando o nascimento do BRock. Geralmente eu agradecia ao final dos shows citando o nome das cidades: Valeu Caxias, Santa Cruz, Bagé... a sensação que tínhamos era de que a cidade estava mesmo ali. Havia uma efervescência geral, uma galera nova fazendo música e perspectivas de um país mais democrático no horizonte.

Mas, em São Paulo, não éramos ninguém. Nossa história ainda estava por ser escrita. Tive este insight em meio ao primeiro show na Paulicéia desvairada. Não dava pra chamar aquela dúzia de pessoas, por mais animada que estivesse, de São Paulo. Então me limitei a um genérico "valeu, rapaziada!". Pitz, grande baixista e figura dulcíssima, deve ter pensado que fora esquecimento meu, chegou ao microfone e tascou: "obrigado, São Paulo!". Achei engraçado. Hoje, penso que ambos estávamos certos. Era e não era a cidade.  Essa São Paulo são tantas cidades...


(*)

Porto Alegre e São Paulo são as duas praças onde pisei cada degrau da escada. Sem saltos nem atalhos. Dos primeiros shows em locais pequenos a shows nos maiores espaços (em POA, da Escola de Arquitetura ao Gigantinho. Em Sampa, do Rose BomBom a duas noites no Ibirapuera!).

Entre estes extremos, rolaram muitas passagens inesquecíveis, algumas tragicômicas: lembro de estar em meio a uma temporada no Anhembi quando Collor confiscou a poupança, em março de 1990. Adivinhem: casa lotada, mas só cheques na bilheteria.

A única tour que não passou por Sampa foi a do Gessinger Trio, em 96, por motivos que só aos poucos fui percebendo e que não tem nada a ver com a cidade. Guardo lembranças especiais dos shows do DANÇANDO NO CAMPO MINADO e do VÁRIAS VARIÁVEIS. Não é à toa que este álbum traz a bandeira do estado de São Paulo na contracapa, foi uma fase bem paulista (que fique entre nós, não espalhem: sexta vamos abrir o show com Sampa no Walkman).

É, foram muitos momentos marcantes e decisivos desde 86 até o show mais recente em Sampa - Pouca Vogal em 2011. A gravação dos três primeiros discos, os grandes festivais em estádios de futebol, o show de reveillon na paulista quando se temia o bug do milênio, a gravação de três DVDs... bah, quanta coisa bacana! Boas lembrança!

Mas vamos em frente: pra quem é da área, tá reforçado o convite: sexta, 21h no HSBC. E pra galera que tá longe, fica a minha esperança de chegar a todo lugar que quiser me ouvir. INSULAR taí pra isso! Bora!
18mar2014

desejos colecionáveis (140)

Além de talentoso, Augusto Licks sempre foi um cara muito zeloso do seu ofício de guitarrista. Em tempos ainda não globalizados, de economia fechada com inúmeras dificuldades burocráticas, ele era um dos raros caras que assinavam a revista Guitar Player

A publicação americana era a única especializada em instrumentos e instrumentistas (depois chegaram Guitar WorldKeyboard, Bass Player... ). Num dos primeiros ensaios que fizemos, Augustinho disse que queria se desfazer das edições antigas, que só estavam acumulando pó e ocupando espaço no seu apartamento. Pedi para ficar com elas. Guardo-as até hoje. 


(*)

Qualquer coleção fala muito do tempo que abrange. Seja qual for o assunto: pesca, política, futebol, carros, fofoca... por mais específico que seja, sempre fala do ambiente geral. Méritos jornalísticos à parte, minhas revistas dão uma inestimável testemunha das décadas de 80, 90 e 2000. 

Mantive o hábito de comprá-las até que a www prevaleceu de modo inquestionável. Ainda hoje me incomoda o fato de que esqueci a edição de julho de 95 da Bass Player no estúdio de Los Angeles onde gravamos o Simples de Coração. Um buraco na coleção? Ok, acontece. Causado por distração? Imperdoável!

Depois que nos acostumamos ao jornalismo online, com suas atualizações à toda e qualquer hora, é difícil dimensionar quanta seleção uma revista física mensal era obrigada a fazer a cada número. Como consequência desse filtro, basta passar os olhos pelas lombadas na estante, folhear alguns exemplares aleatoriamente, para sacar a sucessão de mudanças e modismos na arte de tocar guitarra, na programação gráfica, no tipo de papel, na proporção entre texto e foto, entre informação e propaganda, nas roupas, cabelos, discursos...


entrevistas profundas,
discos encartados.
Ávido por informação, nos tempos em que ela era escassa, até a sessão de cartas eu lia. Foi ali que tive um primeiro contato com a cultura do politicamente correto tão em voga nos EUA naquele momento: Um pequeno anúncio dos instrumentos Dean trazia a foto de uma mulher em pose sensual segurando uma guitarra. A imagem - leve mesmo para a época - hoje parece ingênua, mas suscitou várias cartas reclamando de sexismo, da utilização da mulher como objeto. Sex sells everything! O anúncio pegou mal. Se não me falha a memória, foi alterado na edição seguinte. 

As coisas foram mudando e, ironicamente, algum tempo depois, atrizes pornô tomaram as capas dos guias de consumidor lançados anualmente pela revista. Um avanço?


Nos torneios de tênis, a função de apanhador de bola era tradicionalmente executada por gente vinculada ao esporte. Era comum jogadores juvenis atuarem como gandulas. Há fotos de John McEnroe e Federer, garotos, trabalhando como boleiros em torneios. São muitos os casos de jogadores top que, quando jovens, alcançaram bolas, toalhas e garrafas d'água para tenistas contra os quais viriam a jogar no circuito profissional. Bacana, né? Como se fosse uma linhagem se renovando. Mestre e discípulo, aprendizado e sucessão. O ciclo da vida.

Talvez por isso o mundo desse esporte tenha estranhado quando, alguns anos atrás, um importante torneio espanhol adotou lindas modelos como apanhadoras de bola. Com saias curtas e camisetas generosamente decotadas ostentando o logo da Hugo Boss, elas pareciam deslocadas, sem entender muito bem as regras do jogo, correndo atrás das bolinhas sem saber exatamente pra quem, quando e como entregá-las. A prática foi adotada por outros torneios, deixou de causar estranhamento. O pessoal se acostumou. Um avanço?


Não me animo nem desanimo com os avanços e retrocessos na caminhada por um  mundo melhor. Junte três pessoas e já é grande a chance de que não se tenha consenso sobre o que, afinal, seria um mundo melhor. Lindas mulheres seminuas ou grandes músicos nas capas de revistas de música? Lindas mulheres seminuas ou jovens interessados no esporte trabalhando nos jogos de tênis? 

Mas não desanimo. Nem me animo com as polêmicas que não resistem a um toque na barra de rolagem das timelines. Não me animo nem desanimo com manifestações exageradas e superficiais de quem grita muito e cansa rápido.


Ah, se ao menos estivéssemos gerando massa crítica na mesma proporção que geramos boatos, julgamentos apressados,  fãfocas... mas... tudo bem, vamos em frente, colecionando sonhos.

(*)

Ainda que quantificadas pela economia e formatadas pela política, as verdadeiras mudanças são culturais. E cultura não deve ter dono, fazemos juntos.


É bom estar na trincheira da arte, por mais precária que seja. Lutando com persistência e discrição. Silenciosamente com música. Com ceticismo esperançoso (se tais duplas forem possíveis). Atentos pra não cair no modismo de combater modismos. Nem na passividade de segui-los.

abraços
11mar2014


bah: sou péssimo para lembrar datas e rostos! Quando cito datas de shows passados podem crer que acabei de checar nos arquivos. Mas, se não me engano, hoje é aniversário da www.stereophonica.com.br (ah, os dias 11!). Então, aqui vai minha saudação. Parabéns pela dedicação! Pela permanente e renovada (se tal dupla é possível) fé no sonho!

a que ponto chegamos? de interrogação? (139)


A gota escorrega pela lateral da caixa de suco de uva. Poderia ser uma gota de vinho descendo pelo vidro de uma garrafa. Regidas pelas mesmas leis - gravidade, mecânica dos fluidos - ambas fariam o mesmo escarcéu visual ao chegar à toalha até então imaculadamente branca.

Ao tocar o tecido, como se fosse uma flor, a gota abre-se numa mancha rubra sobre a qual mais uma força parece atuar: a sede da toalha que parece puxar a gota. Como um terreno fértil chama a semente. 

Uma vez espalhada no tecido, não há mais volta... já não é líquido, tornou-se estampa. O point of no return ficou alguns segundos atrás, alguns milímetros distante. 

daqui não tem mais volta
pra frente é sem saber

E não adianta chorar o proverbial leite derramado. Apesar de menos dramático - ah, a cor branca! -, ele obedece as mesmas leis: gravidade, mecânica dos fluidos. A vida também tem seus pontos a partir dos quais é impossível voltar. Mas, quais leis ela obedece? Difícil saber.

Pilotos de avião sabem que, alcançada certa velocidade e certo ponto da pista, abortar a decolagem já não é uma opção. Olho pela janela da aeronave e não vejo nada sinalizando este ponto. Sou só um passageiro. Da vida?

(*)

Lá nos anos 80, Fritjof Capra lançou O Ponto de Mutação, livro que falava em "mudança de paradigmas". A expressão, que hoje soa gasta, à época ventilava esperanças. Capra era um físico renomado e, no livro, buscava abrir o pensamento cartesiano, reducionista, da ciência para uma compreensão mais abrangente (holista: outra expressão que hoje soa desgastada) do universo.

Conexões entre a ciência moderna e as tradicionais religiões/filosofias orientais eram ressaltadas nos seus escritos. Outro livro dele se chamava O Tao da Física. Por algum tempo, todo mundo parecia estar lendo ou falando desses livros. E esperando dias melhores. Eles chegaram? Olho pela janela... nenhuma placa sinaliza. É daquelas respostas que a gente só enxerga de olhos fechados, né?


bah mudando de saco pra mala: na sexta passada, lançamos um video para Essas Vidas Da Gente ( aqui ). Não "o" video, mas "um" video. Acho que oficializar uma leitura visual restringe e aprisiona a música. É um lance literalmente caseiro que, ao lado do clipe de Sua Graça (aqui), do lyric video de Milonga do Xeque-Mate (aqui) e de algo que estamos preparando para Terei Vivido, vai compondo o universo INSULAR. Até chegarmos ao DVD, que vai trazer um show do trio (assim que estiver assinado o contrato, aviso data e local) e músicas gravadas na serra gaúcha com convidados. 

No centro destes registros (e acima de tudo), fica a música (esse é o ponto).
e aqui fica
um abraço
04mar2014


sonhos tão pequenos que nunca têm fim (138)

Quase sinto inveja de quem tem sonhos malucos, plenos de imagens oníricas e seres fantásticos; sonhos que dão muito pano pra manga, que alimentam análises e interpretações por anos a fio em várias mesas de bar.

Não, meus sonhos não são daqueles que - se profundamente estudados - explicam o passado, preveem o futuro e revelam tudo que há entre os dois.

Sonho sonhos simples. Quase todos muito diretos. Nada que merecesse estar no maravilhoso país da Alice de Lewis Carroll. Ao acordar, facilmente enxergo rastros e descubro o que me fez sonhar: uma música que ouvi, uma imagem que vi... sem muito mistério.

No meu caso, o verbo sonhar pende para o significado desejar (ou seu oposto diametral - seja qual for o contrário de desejo; meus sonhos quase nunca fogem destes extremos). Sonho com situações, encontros e reencontros que desejo (ou temo).

Sonho que estou tomando chimarrão com meu pai... que Wayne Shorter está tocando comigo...  que pessoas que não me entendem passam a entender... que quem gosta de mim gostará para sempre... que serpentes me ameaçam... que, um por um, todos os meus instrumentos falham num show... que o carro não vence a curva... 

Amor, saudade, medo. Sonhos simples, sentimentos diretos, cores básicas.

Seria legal ter mais absurdos nos meus sonhos e menos na vida real? Talvez... mas, se não fosse meus sonhos e realidades, sabe lá o que eu seria. Comecei o texto com um quase porque na real (e na surreal) não invejo os sonhos nem as realidades de ninguém.


boa semana!
25fev2014

caminhadas por qualquer caminho (137)


Hoje começo pelo "bah": eu havia prometido divulgar no post desta semana o local do show que vai virar DVD. Mas surgiram novas alternativas e ainda não batemos o martelo. Só avisarei quando estiver 100% certo, sem chance de mudança, pois sei que há uma galera de várias regiões se programando para assistir (bandeiras de vários estados sempre estiveram presentes nas gravações de DVD!).

Conto com a compreensão de todos. É um ano atípico, com Copa, eleições e um carnaval tardio. Não saco nada de show business, mas quem entende me explica que um calendário assim deixa tudo mais complicado. Fiquem ligados que avisarei por aqui, twitter (@1bertogessinger) e facebook (1gessinger) logo que confirmar o local.

Então, vamos ao que interessa: jogar conversa fora, uma das boas coisas da vida. Segue o texto da semana.




Um par de tênis confortáveis é meu meio de transporte favorito. Isso me coloca no fim da fila da relevância no que diz respeito à mobilidade urbana. Atrás do soberano automóvel, das motos e bicicletas, dos skates e carrinhos de bebê. Pedestres só são notados quando atropelados. Então, melhor passar despercebido.

Sou assim desde sempre, ainda que só tenha me dado conta da estranheza dessa preferência aos poucos, cada vez que encontrava gente que não a entendia. Nas gravações do Simples de Coração, em Los Angeles, por exemplo. Ninguém lá entendia porque eu caminhava se tínhamos carro com motorista à disposição,  se o caminho do hotel ao estúdio não era amigável, se a temperatura naquela época do ano não ajudava. Mesmo assim, caminhei o disco inteiro.

Se dissesse que minha opção por andar se deve à consciência ecológica ou a preocupações com a saúde, estaria distorcendo a realidade a meu favor. Na real, caminho porque gosto. Simples assim.

Às vezes, me imagino fazendo uma caminhada longa, de vários dias. Aonde? Ainda não sei… para manter o espírito certo, não poderia ser uma jornada com motivação esportiva nem turística nem religiosa, o que  limita bastante minhas opções. Talvez por isso ainda não tenha feito a tal caminhada.

Num surto de interesse por Bach no início da adolescência, li que ele havia andando 350km para ouvir o organista Buxtehude tocar. 200 milhas! Bach, além de toda a música insuperável, fez a mãe de todas as caminhadas! Nunca esqueci essa info, desde então é uma imagem recorrente. Penso nisso antes de reclamar quando quero ouvir alguém no YouTube e a conexão está lenta.

Outra jornada bípede interessante foi a do Forrest Gump. Mas, hey, aquela foi uma corrida, né? Ficiconal e de caráter quase oposto, né? Não havia um mestre organista a ser ouvido no fim do caminho, nem direção e sentido parecia haver. Ainda assim, uma bela jornada.


Em momentos turbulentos, quando todo mundo parece querer propagar teorias grandiloquentes e visões panorâmicas que unificam tudo, é especialmente interessante ficar de olho nos pequenos detalhes.

Como andarilho, fico mais sensível aos detalhes das mudanças na paisagem urbana da minha cidade. Vejo coisas que passam batido quando emolduradas por janelas fechadas de automóveis. POA tem mudado muito e muito rapidamente - como de resto, imagino, todas as cidades de um país em transformação.

Tenho notado que, quanto mais diminui o tamanho dos jardins nos prédios novos, maior é o esporro feito para conservá-los. No lugar das velhas tesouras, máquinas barulhentas são usadas para cortar alguns poucos metros quadrados de grama. E uma geringonça de ar comprimido é usada para varrer a grama cortada (o objetivo não parece ser limpar a calçada: só empurrar a sujeira pra calçada do vizinho).

Não me tome por ludista, alguém contra a mecanização que facilita o trabalho. Acho bom que os trabalhadores estejam bem equipados. Só estou divagando inconsequentemente sobre desproporção...

... “um tiro de canhão para matar um mosquito”, “uma usina para acender uma lâmpada” são imagens frequentemente usadas para apontar a falta de proporção entre meios e fins. É sempre preferível – ao menos mais elegante -  que haja maior coerência entre “o que“ e “como”, né?

Bacana mesmo é a ideia de fazer as geladeiras inclinadas para que suas portas fechem sozinhas, só pela força da gravidade. Design elegante. Economia de meios.

Na vida e na arte, não é necessário ser épico o tempo inteiro. Ok, um exagero de vez em quando é bom. Mas, sem exageros: só de vez em quando. 


Dia desses, meu trajeto coincidiu com o do cara que afia facas. Não sabia que ainda havia alguns na ativa. Ele parecia deslocado, na sua bicicleta, com seu apito, entre prédios altos.  A distância entre o amolador e as facas cegas na gaveta da cozinha já não é só de um portão baixo e alguns metros. Agora há portarias de vidro espelhado e muitos andares separando-os.


Nas várias quadras em que andamos quase lado a lado, não vi o amolador parar para afiar nenhuma faca. Nem assim ele me pareceu inútil. Pelo contrário, cumpria a importante missão de lembrar tempos mais humanos, proporcionais.

abraços
do tamanho certo
18fev2014

tche loco, que momento! que viagem! (136)


Anos Setenta

A cada três ou quatro canções, a rádio anunciava que músicas e artistas eram aqueles. E só. Nem hora certa davam. Uma dessas canções cativou o guri que eu era. Passei a sintonizar a estação sempre que podia na esperança de ouvir novamente aquela música. Ainda não havia sido gravada em disco e eram tempos pré-www.  Sem opção, o jeito era esperar e contar com a sorte.

Já não lembro se a música era Nada Mais ou Marcou Bobeira pois uma levou a outra e ambas tornaram-se minhas favoritas. Ao lado de Flor, Xote de Jaguarão, Tango da Mãe... todas favoritas. Quem as tocava era o Musical Saracura. 

Suponho que a imensa maioria dos leitores deste blog não seja de POA nem do RS. E, certamente, não viveu aqueles tempos. Vou poupá-los de ler sobre os meandros e dificuldades de acesso da música local ao playlist das rádios naquela época. Assunto interessante, mas não para hoje.

Apenas pensem numa banda favorita. Esta é uma noção que, imagino, qualquer leitor em qualquer tempo e lugar pode entender. Imaginem uma banda favorita com talento de sobra, inquieta e com vontade de fazer as coisas a seu modo. Com uma formação pouco usual (sem guitarra e com uma guria na bateria) e misturando sons regionais e universais na medida certa.

Nico Nicolaiewsky era um dos vocalistas e tocava piano e acordeon no Musical Saracura. Eu, desde então, sou um fã.


2013 - janeiro

Quando compus Segura a Onda Dorian Gray, de cara pensei em convidar o Nico para participar da gravação. Ser fã nunca me pareceu, por si só, um motivo razoável para convidar alguém para uma parceria. O que realmente me levou a pensar nele foi sua voz frágil e forte (perdão pelo paradoxo), a sensibilidade fina para o humor melancólico e seu jeito de tocar acordeon. Mesmo num estado onde este é um instrumento central, com milhares de gaiteiros, a gaita do Nico soa muito particular.

O convite foi feito e aceito por email. Numa das mensagens, anexei a letra e uma gravação caseira da canção .

No dia marcado, Nico chegou ao estúdio e, depois de um papo leve e engraçado, tirou o instrumento do estojo e uma cópia da letra do bolso. Antes de começarmos a tocar, ele falou sobre algo que devia estar incomodando-o desde que ouvira Segura a Onda Dorian Gray pela primeira vez. Apontando a palavra caralho num dos versos da letra, disse: "Isso eu não posso cantar".  

Que do caralho! Esse lirismo radical, aparentemente fora de época, era exatamente o que eu queria para o disco, para essa música! Alguém que ainda achasse que caralho é palavrão! Alguém que ainda acreditasse não haver lugar para palavrões em canções de amor!

"Afudê!", exclamei. Era isso mesmo que pedia aquela canção sobre amor eterno e incondicional em tempos que não poupam nem os quinze minutos do Andy Warhol.



Como iríamos cantar estes versos juntos, numa harmonia abolerada, sugeri que eu mantivesse "Caralho, como estou ficando velho" e que ele mudasse para "Cara, como estou ficando velho".

Não seria, na métrica, a solução mais limpa, mas tinha tudo a ver com o conceito do disco Insular (a crença de que todo artista constrói um mundo próprio com sua arte e a vontade de conectar estas ilhas com pontes que respeitem suas particulariedades).

Nico, pra quem não sabe, é o seguinte: trata-se de um artista de verdade. Numa das passadas que demos na música, ele sacudiu levemente a cabeça com um sorriso igualmente leve (Nico sempre soa leve sem ser leviano) e, sem dizer nada, passou a cantar "caralho".

Afudê 2! Artistas de verdade não se prendem a esquemas pré-estabelecidos. 


Eu já havia gravado violões, baixo e bandolim; a base da canção estava pronta. Nico foi pra sala de gravação e colocou os fones. Dei um play pra ele sacar se o equilíbrio entre os instrumentos estava legal, se a mixagem estava confortável para gravar a gaita.

Dei um stop e perguntei se ele queria ouvir mais clic (o toc-toc-toc que marca o tempo da música). Nico se inclinou em direção aos microfones posicionados para captar as duas mãos do acordeon e disse enfaticamente: "Não! Sou alérgico a metrônomo!".

Afudê 3! Era isso que a música pedia! Um "não" ao tecnicismo engessado de notas teoricamente perfeitas no tempo mecanicamente exato.


2013 - outubro

Já com o disco pronto, convidei Nico para participar do show de lançamento em Porto Alegre. Nos reunimos para ensaiar um dia antes. No fim do ensaio, pedi que ele autografasse meu acordeon.

Ele ficou compreensivelmente embaraçado. Reconheço que é um pedido xarope. Mas os encontros proporcionados pelo Insular foram tão bacanas! Eu queria mesmo guardar mais esta lembrança. Minha gaita já tinha a assinatura do Borges e Bebeto havia assinado meu violão.

Nico concordou, mas ficou em dúvida sobre o que escrever. Falei com voz solene que teríamos que levar a gaita a um cartório pra reconhecer firma. Abaixo do nome, sorrindo, ele escreveu: "CNPJ: ....."

Afudê 4! Um grande artista que não se leva muito a sério.

(*)

O show aconteceu no auditório Araújo Vianna, onde inúmeras vezes eu havia assistido ao Saracura. A foto abaixo é, literalmente, a última imagem que tenho do Nico (não nos encontramos na balbúrdia pós-show). Ele está sorrindo, no palco, depois de uma canção. Eu, agradecendo. Valeu, Nico!


11fev2014

Milonga do Xeque-Mate (135)

Hoje foi dia de reencontrar a turma. Ensaio para os primeiros shows de 2014. O ano promete: sequência da tour INSULAR e gravação do DVD. Quem já viu o trio ao vivo sacou que tem algo bacana acontecendo... quero registrar isso. Também quero gravar algumas canções com convidados em outra locação.

O roteiro tá super! Agora é transformar a planta baixa num prédio! Quando definir data/local do show de gravação, aviso pois os De Fé fazem parte de tudo de bom que rola; quanto mais deles, melhor será!


Sem muito papo hoje porque o lance deste post é colocar no ar um lyric video de Milonga do Xeque-Mate. Tive sorte de captar imagens num dia bonito (com direito a por do sol com chuva no horizonte) e de ter o ROM como parceiro para editar, a quem agradeço.

Então, é isso. Deixo um abraço e a Milonga do Xeque-Mate :



04fev2014