troço louco


Das duas, uma: ou eu mudei ou não gosto de chuva tanto quanto imaginava gostar. Parece estar chovendo desde sempre em POA e não estou achando nada divertido. Minha solidariedade ao pessoal que está sofrendo nas regiões atingidas por cheias e desabamentos. 

Ora, direis: tudo depende da medida! Sim, claro, é a medida que diferencia o remédio do veneno. Assim como nas variações de estado de espírito, faz toda a diferença do mundo saber que as nuvens são passageiras, né?

vai chover
vai secar
serão águas passadas

O aguaceiro obrigou este pedestre convicto a apelar ao automóvel e ele se deparou com um fragmento de humor involuntário, como que para deixar um pouco mais leve o dia cinza e derreter o chumbo do céu:

Que merda é essa no espelho?!?
Não, não precisam responder,
é uma pergunta retórica.
E um tiro no pé!
=)
Voltando a falar sério, semana de muito (e muito prazeroso) trabalho: ensaios com Rafa e Nando, refinando e burilando essa obra em contínuo e permanente processo de criação que é o inSULar AO VIVO.

Teremos um fim de semana paranaense: na sexta, União da Vitória, onde só estive uma vez (em 2010, na tour POUCA VOGAL).

Sábado, volto a Curitiba, onde toquei incontáveis vezes desde a primeira, em 87, ainda na tour LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS. Adoro a cidade. É sempre bom voltar, ainda mais para rolar som na excelente sala do Teatro Positivo.

Ali, sim, posso contar as vezes em que estive: em 2008 (na tour NOVOS HORIZONTES), 2012 (POUCA VOGAL), 2013 (tour inSULar, antes da chegada do disco) e 2014 (inSULar já com o disco, mas ainda sem o DVD).

Agora, 2015, chego com tudo em cima... sim, sou suspeito, mas a tour tá mesmo linda e teremos novidades. Apareçam, o show é de vocês!


bah 01: pra quem está em POA, a boa da semana é o show do Bebeto Alves ao lado dos incríveis BlackBagualNegoVéio : de terça a quinta, no Teatro Renascença, uma sala especial para nós, porto-alegrenses.

Outro Nada é mais uma parceria nossa, irmã de Milonga Orientao. Ele deu o start com a melodia e eu fiz a letra:

quando a noite já era
um neon que não
apenas um garçom com sono
esfregando o chão

enquanto um pastor falava
do Monte Sinai
ele chegou na rodoviária
vindo da fronteira com o Uruguai

que troço louco
destino
na falta de outro nome
há nomes demais

que traço torto
desenha
o rastro da ausência
a crença que há

chegou de Santa Maria
ainda noutro dia
veio de Uruguaiana
uma semana atrás

vale, serra, litoral
o tempo tanto faz
veio e não trouxe nada
um outro nada deixou pra trás

que troço louco
destino
na falta de outro nome
há nomes demais

que traço torto
desenha
o rastro da ausência
a crença que há

quando a noite já era
e o dia ainda não

que traço torto
desenha 
linhas no horizonte
aos montes, demais


bah 02: Ainda nessa semana, Dom Luiz Carlos Borges estará em São Paulo participando da gravação comemorativa de aniversário do excelente programa Sr Brasil.

Duca está lançando seu DVD, Paulinho Goulart segue esmerilhando com a Comparsa Elétrica, o Instrumental Picumã e no trabalho novo do Esteban (que tem uma brilhante estrada pela frente!).

Orgulho de ter juntado estes malucos no inSULar ao Vivo. Honra e prazer.

Apareçam, o show é nosso, mas é de vocês!


bah 03:  escrevi este post com o laptop sobre a mesa de jantar que herdei da minha vó e que, na enchente de 1941, em POA, ficou quase totalmente submersa. A máquina de costura Singer da vó, seu instrumento de trabalho, foi colocada sobre a mesa e lá ficou, protegida, até que a água baixasse.

Talvez não se faça mais mesas como antigamente, mas gente bacana sempre haverá; pessoal de POA e região que quiser/puder ajudar os desabrigados: 
http://gaucha.clicrbs.com.br/rs/noticia-aberta/saiba-como-ajudar-os-gauchos-que-estao-fora-de-casa-142985.html
21jul2015

cidades maravilhosas


Nesse fim de semana (próximo passado, como se diz em linguagem formal) a tour inSULar passou por Lorena e Rio de Janeiro me deixando (e, aparentemente, muitas pessoas) bem feliz, graças a Deus. 

Tô na estrada há 30 anos, o que me dá a prerrogativa de conhecer um pouquinhozinhoinho meu trabalho, né? Não tanto quanto algumas pessoas acham que conhecem, é claro :-) E o que me chama atenção nessa tour é a regularidade.

Pontos altos, todas tinham (e tinham muitos, eu acho). Mas a inSULar é super constante. Pode ser devido à minha maturidade, a uma maior compreensão da minha música pelo ambiente, à galera bacana que me acompanha (ainda que este não seja um diferencial, pois sempre houve gente bacana ao meu lado), enfim, sei lá... ao momento.


Lorena tem um lance característico, talvez por sua posição geográfica e/ou pelo DNA da casa de shows: sempre pinta gente de várias outras cidades. Cada um que me cumprimentava pessoalmente, no hotel ou na entrada e saída do show, dizia vir de uma cidade diferente! Sou super grato a essa galera que cai na estrada para nos ver tocar.


O Rio sempre é pródigo em flashbacks. Pessoais ou relacionados à minha carreira ou mesmo à geografia urbana. Lembranças emocionantes. Começando pelo Circo Voador, para onde voltei depois de ter tocado lá pela primeira vez em 86. 

Morei na cidade dez anos. Traduzindo em discos: Alívio Imediato, O Papa é Pop, Várias Variáveis, GL&M, Filmes de Guerra Canções de Amor, Simples de Coração, Gessinger Trio e Minuano.  Se fosse traduzir este período em outros aspectos da minha vida, faltaria espaço mesmo na www.

(*)

Minutos antes de sair do hotel para ir passar o som, recebi, via email da assessoria de imprensa, um pedido de entrevista diferente dos que costumo receber: tratava-se de um site especializado em "empreendedorismo musical".

Eram perguntas interessantes e bem articuladas falando sobre o impacto de mudanças tecnológicas e econômicas na administração da minha carreira. Tentei responder deixando claro que nunca me vi como empreendedor e que não penso na minha música como produto nem no meu público como consumidores. Apesar de reconhecer que possamos racionalmente nos reduzir a isso, prefiro não fazê-lo.

Depois do soundcheck, ainda no Circo, dei um depoimento em video sobre a relação artista/fã para um projeto bacana. Acho que falei mais como fã do que como artista, afinal, é assim que me vejo. 

Minutos antes do show, rolou uma rápida entrevista de "variedades" que - apesar da minha falta do que dizer a respeito - parece ter girado em torno do meu cabelo. 

Depois do show, por email, conversei sobre o equipamento que uso na tour com um jornalista de relevantes serviços prestados ao roque nacional que havia assistido ao show .

Este texto está sendo escrito enquanto espero ligação de uma rádio para falar sobre rock, no seu dia.

(*)

Propostas diferentes, diferentes ângulos, numa atividade importante mas que ainda não aprendi direito: falar às pessoas através do filtro da imprensa.

O que eu acho que aprendi, ou que talvez já tenha nascido intuindo, é algo difícil de descrever e que acontece durante um show.

( Ops: melhor esquecer este par de linhas acima e não repetir o erro de quem acha que me conhece completamente: a gente sempre descobre coisas nos shows, nunca aprende o suficiente, jamais sai do bis sabendo tudo. )

Nesses dois shows, me fascinou o que acontece num momento específico do roteiro: quando saio de uma sequência de hits (Terra de Gigantes, Piano Bar, Somos Quem Podemos Ser) no acordeon, pego a doubleneck e toco uma música nova, regional, introspectiva como milongas costumam ser e a galera segue ali, firme ao meu lado, viajando junto! Que privilégio!  

na volta pra casa,
indício de que, cada vez mais,
tudo está exposto: os smartphones
já podem permanecer ligados
(em modo avião)
 durante pousos e decolagens.
No fim de semana que vem (próximo futuro), rola uma folga na agenda de shows. Aproveitarei para ensaiar com Rafa Bisogno e Nando Peters, que assumirá a guitarra à medida em que Tavares se dedica ao lançamento do seu próprio trabalho.

( Fiquem ligados: o disco do Esteban se chama Saca la Muerte de tu Vida - SLMDTV - e está disponível  no www.stereophonica.com.br . Dia 02ago participo do show de lançamento em POA, no Opinião. "Dale!",  como diz o Rafael. )

Já estamos trabalhando em canções que entrarão no setlist e alguns novos arranjos que vão pintar nos próximos shows, a saber:



depois... segue a estrada:


abraços
14jul2015

os sinais estão no ar


Imagino que Deus, mesmo em Sua infinita misericórdia, tenha coisas mais importantes e interessantes a fazer do que me mandar sinais. 

Ainda mais numa semana em que três canais de TV estão passando o torneio de Wimbledon. Ele deve estar num sofá cósmico, com um controle remoto galáctico numa mão e pipocas metafísicas na outra, checando o que atletas privilegiados estão fazendo com o dom que receberam d'Ele.

Mas, como sou muito metido à besta, mantenho-me sempre atento a sobrenaturais - ainda que sutis - manifestações de como, apesar das aparências, as coisas realmente são ou deveriam ser.

(*)

Sábado, enquanto almoçava com um companheiro de estrada antes de irmos passar o som, rolou uma conversa sobre a satisfação que a tour inSULar tem proporcionado, sobre o êxito em manter um fino equilíbrio entre novidades e clássicos no setlist. Parece fácil, mas vivemos um momento em que o padrão geral parece ser de retrocesso a um repertório primário, que não corra riscos. 

Enfim... era um papo que misturava orgulho e pé no chão. Certeza de estar no caminho certo, dúvida sobre aonde ele nos levará. Fé cega e pé atrás. Sempre é bom mixar instinto e reflexão pois, sabe como é, quem está 100% certo de algo não está 100% certo.

De repente, aproximou-se da nossa mesa uma menina muito querida no auge dos seus quatro aninhos. Ela disse que era fã. Os pais vieram logo atrás e reforçaram que ela adorava ver o DVD. Era uma família muito simpática e bem educada. Astral bacana mesmo.

Quando sugeriram que a menina cantasse um trechinho da canção favorita, imaginei que seria uma das músicas mais conhecidas... ou Pose, que, apesar de não ser literalmente um hit, reverberou muito fortemente entre pais e filhos depois da gravação do Acústico MTV (um pouco pelo arranjo e muito pela participação graciosamente carismática da Clara).

Para minha surpresa, a música cantada pela garotinha de quatro anos naquele restaurante no interior de Minas foi a pouco conhecida Deserto Freezer. Eu e meu colega trocamos olhares sorridentes: é... os sinais estavam no ar.
07jul2015

Boa semana para todos! 
Eu estarei por aí:


Amigos: hoje não postarei texto. Nos reencontraremos na semana que vem, ok? Abs, 1berto.

No Inverno Fica Tarde + Cedo


Complexos cálculos da inclinação do eixo da terra definiram que, domingo, exatamente às 13h38min, iniciou, para nós, o inverno. Ironicamente, a estação mais fria do ano chegou na hora mais quente do dia.

não se renda às evidências 
não se prenda à primeira impressão 

Há que ter cuidado com as primeiras impressões, afinal, elas nos dizem que é o sol que gira em torno da terra e que a grama é mais verde no jardim do vizinho.

É recomendável, também, que nenhuma impressão seja a última. Que nos mantenhamos sempre impressionáveis; curiosos e dispostos a ver qualé.

(*)

Previsões meteorológicas falam de um inverno mais chuvoso do que frio, o que dificultará a vida deste pedestre convicto que vos tecla. Sem problema: não brigo com as estações: ainda bem que elas são 4!


Nosferatu já encheu o saco 
do verão eterno
infinito inverno

Certo estava Vivaldi que musicou com maestria o encanto de cada uma delas. Se, no planetinha azul, já fui mais fã do inverno do que sou hoje; nos meus fones de ouvido, Inverno é o mais executado dos 4 concertos.


Enquanto o hábito de virar o travesseiro em busca do frescor do outro lado vai migrando para o hemisfério norte, desejo a todos um bom inverno. Acho que terei quentes noites frias pela frente, junte-se a mim numa delas:

23jun2015

igual... mas ao contrário


Reza a lenda que, numa festa, Peter Grant se aproximou de Bob Dylan e apresentou-se: "Olá, eu sou o empresário do Led Zeppelin", e Dylan teria respondido: "Veja bem, eu não lhe trago os meus problemas".

se non è vero è ben trovato

Li essa história na autobiografia do Ron Wood. Não sei se é verdade, pois já vi citarem o mesmo diálogo com outros personagens. Mas não deixa de ser interessante a reversão de expectativa na conversa. A ostentação virando embaraço.

(*)

Numa dessas madrugadas estradeiras, o ônibus parou num posto de gasolina (em algumas cidades pequenas, postos de gasolina são os pontos de encontro das noites de sexta e sábado). Como sempre acontece nessas ocasiões, explodia do porta-malas de um carro uma música muito xarope, com um grave sujo e desproporcional. Uma tortura para quem vive cuidando dessas frequências com carinho na sua própria música. Acho que era o que chamam funk ostentação.

Já na estrada novamente, longe do barulho, mas ainda contaminado por aquela vibe'stranha,  me lembrei da música Segurança, que escrevi em 1985: ela é um funk ostentação ao contrário! Um reggae ostentação só que não!

(*)

Logo que cheguei ao hotel, peguei o acordeon e fiz um arranjo para Segurança que incluiu trechos da música Números. Ambas têm em comum o alerta sobre a projeção de carências no status vazio, na quantificação sem sentido. 

Por pouco outras canções que também tangenciam estes temas não entraram no meddley, o que provaria a tese de que todo poeta escreve sempre o mesmo poema. 10.000 variações sobre o mesmo tema.

(*)

É uma canção esquisita. Nos anos 80, era só baixar um pouco a guarda e ela virava sucesso. De uma maneira estranha e que me assustava, pois a ironia da letra muitas vezes (inacreditavelmente) passava despercebida. Aconteceu com a primeira demo, na coletânea Rock Grande do Sul, no Longe Demais das Capitais e até num remixe techno feito à minha revelia.

Quando foi lançada, fui a um programa de rádio AM (bem popularzão, daqueles em que o locutor distribuía dentaduras e cadeiras de roda) e o cara falou maravilhas sobre a música emendando: "de fato, a segurança pública esta um caos". Caramba! Bota fora de contexto nisso!

Na época, um curso pré-vestibular espalhou outdoors por POA usando o refrão da música. Além de não creditar a autoria, me deixaram muito constrangido pois ali cometo meu erro de português favorito: ligar "você" e "te". Caramba, justo uma instituição de ensino!

(*)

Tenho adorado tocar a nova versão. Talvez pela inocência agridoce da gaita (que já estava presente na primeira demo mas ficou pelo caminho: a gravação do LDDC contou com o sax do Manito, d'Os Incríveis. Ratatatá!).

Quem sabe entra no setlist hora dessas? Quem sabe, no próximo capítulo da tour (inSULar 2.0) ou comemorando os 30 anos Longe Demais das Capitais, quem sabe?

Enquanto isso, estão todos convidados a se juntarem ao trio n'alguma das curvas da highway:


abs
16jun2015

Nuvens


A segunda-feira amanheceu cinzenta e fria. Mas por algum dos tortuosos caminhos da afetividade, simpatizei com ela.

(*)

Este é o dia da semana que deixa clara a singularidade da minha arte/ofício. Enquanto as engrenagens do mundo começam a girar, eu vivo meu fim de semana particular. Dia de tirar do corpo ônibus, hotel e aeroporto.

À tarde, jogo tênis, esporte importante na minha mitologia pessoal. Nada como um tresloucado jogo de bola pra deixar a criança que vive dentro de nós tomar um pouco de sol e respirar ar fresco.

Tão importante quanto o treino é a caminhada que o precede e sucede. Nessa hora e meia perneando por POA coloco meus pensamentos em dia.

(*)

Passo por uma banca de jornais (onde se vê cada vez menos jornais) e adivinho as manchetes: algum novo caso de corrupção, os resultados do futebol de domingo e o pessimismo na economia.

Mas, hey, apesar de ser segunda, estou no meu fim de semana e diluo estas pedras de realidade como se fosse um Sonrisal num copo d’água (ainda existe Sonrisal?).

(*)

Não entendo nada de economia, mas já tracei minha estratégia para tempos de crise: seguir exercitando coração e mente na busca da canção perfeita; seguir exercitando os dedos nas cordas e teclas. O mesmo que fiz em cada crise por que passei e que vi passar. Econômica, pessoal ou imaginária.

Nos dez anos entre a gravação do Acústico MTV e do inSULar ao Vivo, a indústria em que nós, músicos, estávamos inseridos foi varrida por uma revolução (a princípio tecnológica, mas também econômica e conceitual) que não deixou pedra sobre pedra.

Olho para trás e vejo que, nesse período, nasceram 4 DVDs (Acústico MTV, Novos Horizontes, Pouca Vogal e inSULar ao Vivo) que registram um mergulho nas sonoridades acústicas, incorporando instrumentos que se tornaram centrais no meu trabalho (viola caipira, acordeon, bandolim e harmônica) e, à partir do CD inSULar, o retorno ao baixo e ao power-trio com uma perspectiva renovada e revigorada.

Além disso (e de incontáveis shows) lancei 5 livros no período. Mesmo quem não simpatiza com minha arte/ofício há de convir: nada mal, né?

(*)

Dias nublados também podem ser belos dias. Se os ventos da mudança fossem previsíveis, não seriam os ventos da mudança, né?

(*)

Quanto aos resultados esportivos: há sempre uma noite de quarta depois de uma tarde de domingo.

09jun2015

Firme e forte


Tenho um amigo publicitário que, sempre que me encontra, repete que Pouca Vogal e inSULar são "cases de sucesso". Acho que ele se refere a movimentos inusitados na minha carreira em que preferi o risco ao que era esperado e sai firme e forte, ainda sobre a prancha, no outro lado do tubo (metáfora que meu amigo publicitário e surfista irá curtir).

Fico lisonjeado, mas fujo como o diabo da cruz dessa conversa de "sucesso". É um terreno cheio de armadilhas. Pode ser bom para um papo superficial regado a cerveja nos facebootekos da vida. Mas para quem entregou sua vida a alguma arte/ofício, o buraco é mais embaixo e sempre mais profundo.

Case por case, fico com a palavra inglesa que denomina as caixas que protegem meus instrumentos, sobretudo na estrada. Com arranhões e selos de "frágil" das companhias aéreas rasgados e carregados de ironia, elas são testemunhas da alta quilometragem percorrida. Frágeis? Nah, firmes e fortes!

( Como trilha sonora desse devaneio, sugiro Joni Mitchell cantando A Case of You : I could drink a case of you and I would still be on my feet ).

(*)

A semana que passou prometia e cumpriu. Foram passagens maravilhosas por Recife e Fortaleza. Depois do último show (épico!), só tive o tempo justo para um banho e corri para o aeroporto. Embarcado,  o sono me venceu em dois estágios: Fortaleza/Brasília e Brasília/ PoA.

No pouso de um dos voos - não lembro qual - acordei com o comissário pedindo para voltar o encosto da poltrona à posição vertical. Normal, um procedimento burocrático. Mas, sabendo que eu estava dormindo quando o serviço de bordo passara, ele saiu do padrão e, gentilmente, perguntou se eu queria algo. 

Enquanto agradecia e dizia que não precisava, me dei conta de que devia estar com cara de andarilho, olheiras de dar pena... e lembrei de um filme que vi há muito tempo, quando frequentava o Clube de Cinema de PoA. 

Como todos os filmes que passavam naquelas manhãs de domingo, era obscuro, em P&B e não havia chegado ao circuito comercial. Este, especificamente, era tcheco... ou de algum outro país do lado de lá da cortina de ferro... ah, memória que me falha!

Do filme, só lembro de uma imagem: um cara, vestindo terno e gravata, andando de bicicleta por uma estrada de terra, num ambiente rural, com um enorme contrabaixo (acústico mesmo, o bom e velho rabecão) amarrado ao banco de carona.

O braço do enorme instrumento se inclinava até quase tocar a cabeça do músico que pedalava a caminho de uma humilde festa de casamento numa pequena aldeia, onde tocaria com um grupo que incluía acordeon e percussão. 

Bicicleta, baixo e baixista formavam uma figura única e harmônica recortando o céu cinzento. Assim como o grupo de músicos amadores formava uma figura única e harmônica tocando  para os vizinhos daquela pequena comunidade.

Nessa manhã de domingo, a bordo de um moderno jato, não me senti muito diferente do baixista em sua bicicleta. Também estou na estrada e minha música é a bagagem mais importante. Cansado ou não, fazendo o óbvio ou não, vivendo em harmonia ou buscando-a... sempre firme e forte!

(*)

A semana que inicia me levará a Volta Redonda e BH. Ah, Beagá! Volto exatamente um ano depois de, ali, ter gravado o DVD inSULar ao VIVO. Noite especialíssima! Quem foi? Quem vai?

Nas fotos abaixo, algumas das muitas passagens pela capital mineira:






26mai2015

E, afinal, o que é blues? O sorriso triste do Rei ou o choro alegre da Lucille?


Vi BB King pela primeira vez, na TV, quando eu era bem piá. A única chance de "ouver" este tipo de som era num programa que ia ao ar nas tardes de sábado e que tinha, como abertura, a música Dreamer do Supertramp. 

Clipes eram raros - a palavra nem existia. Talvez por isso, o do Blues Boy King era presença constante no programa, ao lado de um do Deep Purple. Usando uma raquete como guitarra e a antena da TV como microfone, eu me divertia imitando Ritchie Blackmore e o mestre. 

As raquetes já não são de madeira, as TVs já não têm antenas, basta um clique e temos acesso abundante à música em formato audiovisual... muito mudou, mas segue igual a admiração que tenho pelos caras. E a intro de Dreamer ainda arrepia este velho piá sonhador.

(*)

Gosto dos artistas que surpreendem quando falam, aqueles que não dão literalmente o que se espera, na hora que se espera. Suspeito, por exemplo, dos que dizem que suas canções prediletas são seus maiores sucessos. Acho muita coincidência. 

Perguntado qual de suas músicas era a preferida, BB King disse que não tinha uma, mas que, se conseguisse cantar Always On My Mind como Willie Nelson, passaria os dias fazendo isso. 

Surpreendente. Buscar um exemplo do outro lado do muro que divide o blues da música country! Bela e humilde sacada de um instrumentista exuberante escolher o fraseado de um cantor. Mestres... sempre ensinando! 

(*)

Lembro de uma discussão que presenciei entre dois amigos guitarristas sobre quem era mais "blues", Luis Melodia ou Celso Blues Boy (como em todas as discussões superficiais, só um poderia prevalecer). 

Enquanto um dos amigos argumentava de forma literalista ("Pô, mas o Celso até tem blues boy no nome!"). Outro pensava de forma mais dialética, citando as raízes negras do grande Melodia. Para os dois debatedores, era só um papo de bar - nem devem mais se lembrar do que falaram - mas eu seguidamente me divirto transpondo este embate entre ortodoxia e heterodoxia para questões políticas, religiosas, estéticas... 

Seja A Bíblia, O Capital ou as celebobagens da semana, sempre há quem leve ao pé da letra e quem contextualize. Ambos erram e acertam. Como ondas que vêem e vão.

(*)

BB King tinha uma visão muito generosa sobre uma querela clássica: enquanto muitos blueseiros americanos reclamavam dos jovens ingleses dos anos 60 que faziam mais sucesso do que eles tocando blues, BB dizia-se grato pela popularização do estilo que aquela geração havia proporcionado. 

Na capa de um disco em pareceria com BB King, Eric Clapton (um daqueles jovens ingleses) aparece, humildemente, como motorista do velho blues man. Riding with the King. Boas energias emitidas cedo ou tarde retornam.

(*)

Lucille é o nome que BB King deu a sua guitarra, agora uma viúva silenciosa. Eu tive uma Gibson Lucille. Vermelha, o que é pouco comum; geralmente são pretas. Era do Lulu Santos, trocamos. Eu dei uma Gibson 350, ele me deu a Lucille e um Violão de 12 cordas. 

Nenhum dos dois instrumentos se sentiu muito à vontade aqui em casa. Dei o violão para o senhor que cuidava do nosso jardim. Ele precisava de um instrumento pra tocar na igreja. Ambos (ele e o violão) ficaram felizes. Eu também.

A Lucille, que tinha uma discreta assinatura do Lulu no corpo e, por isso, eu chamava Lulucille, passei para um colega. Não sei por onde anda. Espero que esteja feliz. 


bah : Apesar da minha inteligência mediana, o fato de, há 30 anos, viajar pelo Brasil fazendo música me dá uma percepção bastante abrangente do nosso país. 

E vejo um país diferente do que aparece nos pitacos superficiais dos FaceBootekos da vida. Nem tão ruim como uns vêem, nem tão bom como outros garantem. Muito mais complexo do que os dois lados imaginam na sua pressa de prevalecer nos bate-bocas digitais.

Não é uma complexidade paralisante, daquelas que nos fazem andar em círculos. Mas optei por não colocar ideias que tanto custei a costurar no liquidificador histérico das redes sociais. Só digo que, apesar das dificuldades, acredito num futuro melhor para todos nós. "Vamo que dá". 

Tô sendo muito otimista? Como não ser se, por exemplo, nesse fim de semana vou tocar em Recife e Fortaleza, duas cidades de uma região culturalmente riquíssima?! Quanta música maravilhosa, poesia, pensamento, etc... nasceram ali! (No sul também, meus conterrâneos, não fiquem com ciúmes hehehe).

Sim, há muito o que fazer. Mas ter o que fazer (ser possível) já é um início.

Algumas das muitas passagens por Recife.
( Também toquei na cidade em
1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993,
2000, 2005, 2006, 2011, 2012 e 2013. )
Algumas passagens por Fortaleza - 01
Algumas passagens por Fortaleza - 02
( Faltam fotos de 1987, 1988, 1989,
1990, 1991, 1992, 1993, 1994,
2000, 2004, 2005 e 2010. )
26mai2015

365


Segunda-feira chuvosa em PoA, 11 de maio. 

Ops, 11 de maio! Há exatamente um ano começavam, na serra gaúcha, as gravações do DVD inSULar. 

E no dia 30 deste mês, voltaremos ao Chevrolet Hall, em BH, exatamente um ano depois da gravação do show.

Já estou no modo comemoração. Justa comemoração pois este trabalho só gerou coisas boas, na sua invenção, na preparação, na execução... e continua gerando a cada volta do ponteiro.

Não sei se deveria, mas, como vocês são de casa... mostro algumas opções de capa que surgiram antes que batêsssemos o martelo na definitiva. Lembranças do futuro que a gente imaginava. 

Projetos Gráficos de Melissa Mattos
E vamos em frente, ainda há muito que fazer!

12mai2015

De repente

24 léguas de um dia que não vem
60 toneladas de um segundo em suspensão


Meu livro Nas Entrelinhas do Horizonte abre com um capítulo chamado O Dia Em Que Deixei De Ser Criança. Auto-explicativo. Na real, ali narro várias histórias pois foram muitos os dias em que deixei de ser criança. Tantos quantos os dias em que voltei a ser.

Mal tinha saído o livro e eu já havia me lembrado de outros exemplos que poderia ter citado... e continuo vivendo esses micro ritos de passagem. O que me faz pensar que é um capítulo sem fim.

(*)

Ray Manzarek disse ter presenciado o momento exato em que o espírito criativo abandonou seu companheiro do Doors, Jim Morrison. Em meio a um show, foi-se o brilho nos olhos.

(*)

Em meio a uma conversa banal sobre futebol, referindo-se a um zagueiro de longa carreira, um amigo veio com esta pérola: "Lembro exatamente do jogo em que ele envelheceu".

Manda o bom senso que a gente reconheça a frase como uma figura de linguagem. Evidentemente, trata-se de um zagueiro que vinha há anos administrando a gradual perda de velocidade e agilidade, até que não foi mais possível. Aí, as falhas começaram a ser mais constantes, etc...

Mas, tomado por um surto de realismo fantástico, viajei no sentido literal da frase, imaginando um zagueiro que entrasse no gramado jovem e, 90 minutos depois, saisse de campo um ancião. O futebol é mesmo campo fértil para exageros. A gente pode envelhecer dez anos ou mais em 45 minutos e voltar a ser criança num grito de gol.

(*)

"A subversão da noção de tempo nos momentos da quebra de encanto". Que tal parece, como título de tese no curso de Achologia? 

Uma infância cíclica, que se renova com o passar do tempo ou a ideia de que o envelhecimento e a fadiga não são frutos de um processo gradual, mas acontecem de repente, são conceitos de difícil defesa. Mas não deixa de ser interessante brincar com eles por uns momentos.

Alargar os laços da racionalidade que prendem a causa à consequência, num mundo tão prisioneiro da objetividade, pensar na vida como uma sucessão de pontos e não como uma linha contínua, pode ser interessante, ainda que assuste um pouco. Um exercício de humildade.

abraços
05mai2015

bah : É comum que eu passe os domingos zanzando de aeroporto em aeroporto no caminho de volta para casa depois dos shows de sexta e sábado. Apesar das horas em trânsito, são os poucos minutos de espera da bagagem na esteira que mais custam a passar.

Igual a quando a gente tá afim de ir ao banheiro. Pode aguentar um tempão, mas os poucos segundos no elevador, chegando em casa, parecem eternos, intransponíveis.

Putz, que papo chulo para acabar um texto, né? Perdão. Vou tentar melhorar para semana que vem. Se ela tiver 7 dias e todos eles tiverem 24 horas, talvez eu consiga.

tecnolorgia


Abaixo dois diagramas pro pessoal que curte equipamento (somos uma galera!) e com frequência me pergunta o que estou usando na tour inSULar.


1- instrumentos de cordas:

Nos shows, uso baixos de 4 e 6 cordas, além de uma doubleneck baixo/guitarra. 

Os baixos dividem  o mesmo sistema: depois de um pedal A/B que seleciona entre um baixo de 6 ou de 4 cordas, o sinal de audio passa por um afinador, um V-Wah Roland e um preamp Hartke Bass Attack. Daí o som vai para a mesa de som e o PA.

Na doubleneck (instrumento com dois braços que os falantes do inglês chamam dois pescoços pois a mão dos instrumentos eles chamam de cabeça (instrumentos sem mão como os Steinberger para eles são headless)), o baixo passa por um DI SanAmp antes de ir para a mesa e o PA; a guitarra, passa por uma pedaleira Boss GT10.


2- Synths


Uso sons de piano elétrico e órgão Hammond do teclado Nord.

Um controlador de pé Roland PK5 dispara sons do teclado Bass Station ou do Micko X50. Em qualquer dos casos, é o mesmo teclado que fica sobre o Nord e uso para fazer os baixos com a mão esquerda no set de teclados.

Por precaução (seguro morreu de velho!), ainda existe a possibilidade de um módulo de som JV 880 ser controlado pela PK5 ou por um teclado controlador Behringer.

O MicroKorg fica na frente, à minha direita, uso para fazer algumas camas e o vocoder no set de baixo.

O acordeon preto é um modelo aperfeiçoado do branco, com falantes (que o outro não tinha) e outras mehorias. 


3- Cabeça e coração

Aí é que o jogo é jogado e decidido.

abraços
01mai2015

bah: esqueci das harmônicas! Gosto das Hohner. Modelo Marine Band paras os tons G e D; Blues Harp para A e E. Não me perguntem por que essa  variação... não sei explicar =). 

doses homeopáticas, escala industrial


Passei a tarde de sábado conversando com o camarada Nando Peters. Objetivamente, o motivo da conversa era traçar planos para projetos futuros. Mas, minha arte/ofício é muito subjetiva. Nela, a objetividade vale bem menos do que no mundo real. Por isso, a conversa correu solta pelos mais diversos assuntos. A maioria dos quais, aparentemente, sem nada a ver com os tais planos. Aparentemente.

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Lembrei da anedota sobre a diferença entre bandas americanas e inglesas: ambas marcam 4 horas de ensaio; mas os americanos conversam meia hora e tocam 3 horas e meia enquanto os ingleses ensaiam meia hora e conversam o resto do tempo.

Qualquer relação com a objetividade dos gringos e a subjetividade dos britânicos será mera coincidência?

(*)

Nando já participou da tour inSULar. Em Rio Branco-AC e Palmas-TO, num festival em que dividimos a noite com Sepultura. Ele também toca com Luciano Granja, que, por sua vez, já participou da tour inSULar em Vitória da Conquista, Bahia, num festival em que dividimos a noite com Saulo da banda Eva e Paula Fernandes.

Às vezes estamos no-centro-por-dentro-de-tudo-no-olho-do-furacão... mas precisamos de um papo aparentemente sem sentido para tropeçar no óbvio. Essa corrente de participações de guitarristas gaúchos tocando longe de casa e dividindo palco com artistas de estilos tão variados fez cair a ficha de quão ampla - geográfica e ambientalmente - esta sendo a estrada inSULar.

Há que ficar atento a esses fatos que nos servem de espelho, que nos fazem enxergar algo que está diante dos nossos olhos mas que, até então, não víamos.

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Na gravação do disco A Revolta dos Dândis, eu tocava baixo fazia pouquíssimo tempo. Havia ficado com o Rickenbacker do Pitz (na troca, ele ficou com minha guitarra Ibanez Allan Holdsworth). Amplificador? Ainda não tinha.

A produção ligou de São Paulo perguntando o que eu achava de alugarem um Ampeg para as sessões. Pra não dar bandeira da minha inexperiência e da escassez de equipamentos de POA, fiz de conta que conhecia muito bem o equipamento que eu só tinha visto em fotos de bandas que curtia e respondi: "ótima ideia".

Meu coração disparou quando entrei no maravilhoso estúdio da RCA em Sampa. Tchê, que beleza: teto alto para gravar orquestra, tratamento acústico das paredes com madeira, pedras, espelhos, cortinas... pianos, órgãos, tímpanos e outros instrumentos espalhados pela sala... a onipresente logomarca do cachorrinho ouvindo gramofone... dava vontade de morar ali!

Disparado, meu coração quase parou de vez quando enxerguei, num canto da sala, um cabeçote Ampeg já ligado, com as válvulas irradiando a cor quente da eletricidade. Ele estava sobre uma enorme caixa, também Ampeg, com oito falantes de 10".

Foi um detalhe desta caixa que me fez entender várias coisas em uma fração de segundo: ela tinha, na sua base, duas rodas robustas. Atrás, na parte superior, havia uma barra cilíndrica de metal. Design para facilitar o transporte. Segurando na barra, inclinava-se a caixa, e ela virava o carrinho de carga de si mesma.

Eu, acostumado a tocar com pequenos amps, no meu quarto, sob o poster de alguma banda favorita, me dei conta de que minha música estava passando para a escala industrial. Ampla. Espalhada geográfica e ambientalmente. Um detalhe no desenho da caixa me serviu de espelho para ver o que estava na cara.

Achei o máximo, lógico: "vamos para o mundo"! Mas imediatamente tratei de fazer um pacto comigo mesmo: de manter sempre vivo, trazer sempre comigo, o menino que tocava no quarto olhando para posters de bandas geniais. Fosse qual fosse o caminho da minha estrada musical, em doses homeopáticas ou escala industrial.


bah: Um dos riscos do papo-auto-ajuda, tipo "lute pelos seus sonhos", é que, de tanto lutar, o cara pode esquecer de sonhá-los.
28abr2015

pontos fora da curva


Por mais que soe estranho em meio a pandemia de Síndrome de Peter Pan (a negação do amadurecimento) que assola o mundo, algo deve ser dito a favor da passagem do tempo: é divertido observar a dança das cadeiras.

Talvez este divertimento não seja suficiente para equilibrar a balança que tem, no outro prato, a fragilização do corpo, o cansaço da mente. Mas, hey, o que há fora do tempo? Uma eterna juventude já não seria juventude, né?

Às vezes, do nada, pintam umas lembranças que me fazem rir. Lembro de quando alguns caras me criticavam por compor baladas. Eles se orgulhavam de uma alegada "pureza", mantendo a fama de máu dia e noite. Mas só até ali... logo começaram a compor, não só baladas, mas qualquer coisa que o mercado pedisse. Engraçado.

Engraçado também eram os tempos em que diziam que minhas canções eram "música pra dançar", Dá pra acreditar? Certamente não nesses dias pós-DJ. Engraçado.

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Sigo tocando meu barco nesse oceano ora turbulento ora calmo, aprendendo a me divertir só de olhar a espuma gerada pelo atrito do casco com a água. Aprendendo a distinguir o oceano da espuma.

(*)

Alguns artistas parecem sofrer muito com a própria trajetória, renegando fases, selecionando público, tentando domesticar a realidade - inutilmente: ela será sempre imprevisível; na maior parte das vezes, surpreendente.

Não sei se escreveram canções fora da curva ou se suas ideias é que fizeram uma curva. Certo é que eles têm todo o direito de fazer o que quiserem. Mesmo que seja uma engraçada tentativa de mudar o rastro de espuma que o barco deixa n'água. Como se o rastro fosse independente da trajetória do barco; como se a consequência pudesse ignorar sua causa. 


bah: estranho postar em dia de show (a essa hora devo estar tocando em Divinópolis, se você lê à meia-noite de segunda pra terça). Efeito colateral de Tiradentes. Bom feriado para todos! 

Na foto acima, os shows já confirmados da agenda inSULar. Há negociações com outras cidades em andamento. Quando confirmarem, aviso por aqui e nas redes sociais. 

Estás convidado/convidada a "se chegar" quando o barco passar por teu porto! Para deixarmos, juntos, um bonito rastro; véu branco no mar azul.
21abr2015

33,333333...


Baita fim de semana! Daqueles em que o show troca de marcha, sobe um degrau. 

Sexta, em Juiz de Fora, uma multidão empolgada e a alegria adicional de dividir a noite com os Paralamas do Sucesso. Vendo uma foto que fizemos, eu Bi e Barone, não pude deixar de notar a dignidade de nossas barbas e cabelos grisalhos. Modéstia à parte.


Sábado, em Campinas, novamente um público empolgado. Reconheço que Pouca Vogal não chegou a "entrar" em São Paulo. É um prazer enorme voltar a tocar mais frequentemente neste estado tão importante para minha história.

Estávamos indo para o show quando deu meia-noite. Ao fim da décima segunda badalada do sino, a van não se transformou em abóbora, mas Don Esteban "el flaco, o magro, el mago" Tavares recebeu vários telefonemas felicitando-o pelo aniversário.


Onde eu estava aos 33 (a idade de Cabral quando foi ao mar e de Jesus crucificado/ressuscitado)? Gravando o disco Minuano.

Deserto Freezer e Nuvem são canções do Minuano que o inSULar fez renascer na serra gaúcha. Re-nascer-na-serra, re-nas-cer-na-ser-ra... sons interessantes me levando ao sono, tirando-me daqui.

Minha cabeça gira, dando voltas pois, além de muito prazeroso e produtivo, o fim de semana foi cansativo. Dormi pouco no trajeto entre as duas cidades e nada entre o segundo show e o embarque para POA, no início da manhã de domingo.

Sonado, a única coisa de que me lembro do avião é que um cara caminhou pelo corredor atrapalhando o fluxo do embarque para perguntar aos pilotos na cabine: "Não tem ninguém deprimido aí, né?". Confesso que a brincadeira me deixou um pouco incomodado.

Ok, não é pra tanto: vou debitar o incômodo à minha privação de sono, à falta de graça da piada e à euforia que toma conta das pessoas pouco acostumadas a voar quando entram num avião. Talvez seja uma maneira de esconder o medo, sei lá. Quem sou eu para julgar?! Zzzzzzzzzz...

Acordei no pouso, segui como um zumbi para casa e dormi o dia inteiro. Despertei já na noite de domingo, com a casa escura e em silêncio. Descobri nas minhas timelines que meu time havia ganho, que as manifestações contra o governo levaram menos gente às ruas, se comparadas às anteriores, e que havia começado mais um programa de calouros na rede de TV aberta de maior audiência.

Sei que alguns dos meus ídolos seriam sumariamente gongados por júris ortodoxos ou pela "voz do povo". E que muitos nem aceitariam submeter-se a julgamentos artísticos. Mas espero que essa vitrine dê oportunidade a muita gente boa de mostrar seu valor. Sempre é louvável que se abra, nos canhões da mídia, espaço para a música feita aqui. 

Mas, na boa, não entendo a euforia que esses programas causam até em gente que diz não gostar. Eles me parecem aqueles campeonatos mundiais de futebol de areia que acontecem todos os meses. Distantes da vida real, seja ela uma Champions League ou o mais modesto dos campeonatos regionais. 

Acho que a vida real tem mais a ver com a barba grisalha do Bi. 
14abr2015


bah segunda-feira blues:  Eduardo e Günter se foram. Peço perdão pela intimidade do  uso dos primeiros nomes, mas a relação escritor/leitor dá o direito, né? Fica meu agradecimento por terem me feito pensar + sentir = viver belos momentos.

bah final feliz: Günter Grass nasceu em Gdansk... em Gdansk são feitos, à mão, os baixos Mayones. Eduardo Kusdra, representante da marca no Brasil, gentilmente, levou à Campinas alguns modelos para que eu desse uma olhada. Fim de semana legal.