ops...

... hoje não vai rolar o texto da semana pois a náu inSULar ganhou mais esse maluco tripulante:


Estamos nos conhecendo. Bem vindo(s) a bordo!

abraços
de dois braços
03mar2015

Encontro na montanha


No feriado, subi a serra em busca de sossego. A trilha sonora na estrada foi o disco que comemora 50 anos de carreira do Luiz Carlos Borges, projeto do qual tive a honra de participar. Quando ele me convidou, sugeri que cantássemos Encontro com a Milonga, uma composição inspirada - e muito bem escrita - em que o mestre fala da relação do músico com sua arte/ofício:

ouvi dizer que a milonga 
andava com a espinha torta
ouvi dizer que a milonga 
andava com a espinha torta
e até ouvi comentários 
que a milonga estava morta

então quem foi que esta noite 
veio golpear minha porta?
então quem foi que esta noite 
veio golpear minha porta?

acordei de madrugada 
inquieto e meio nervoso
e fui terminar o pouso 
abraçado na guitarra

parecia uma fanfarra 
a mescla de corda e voz
uma milonga entre nós 
e eu grudado na guitarra

só lá pelas quatro e meia 
já na madrugada longa
eu controlei a milonga 
sem entortar a harmonia

enquanto ela me dizia 
num tom grave, mas sincero
"ou tu canta como eu quero 
ou não vê clarear o dia"

"tum tum tum, tum tum tum" 
a milonga repetia
e eu não chorava nem ria 
com os olhos que eram um braseiro

mas quem nasce milongueiro 
mesmo com a vida num fio
não refuga desafio 
e nunca corre primeiro

as horas foram passando 
e eu já parecia outro
ela viu que eu era potro 
mas disse "não te amedronta"

"ninguém venceu, 
faz de conta que aqui nada se passou"
mas quando o sol apontou 
eu tinha a milonga pronta!

e ainda meio cansado 
depois desse pega-e-solta
com jeito, campeei a volta 
antes que ela fosse embora

e perguntei sem demora 
porque sou curioso assim
"conta em segredo pra mim, 
onde é que a milonga mora?"

e a milonga então me disse 
"não é segredo, parceiro
já morei com um missioneiro
que tinha n'alma um violão"

"eu durmo em qualquer galpão 
e desperto com a boieira
mas, se tu for da fronteira
eu moro em teu coração"

e não pude mais contê-la 
quando enveredou pra porta
me gritando "eu não tô morta 
e pra frente há muita lida"

"por ora estou de partida 
a razão pouco me importa
mas volto a golpear tua porta
porque teu rancho tem vida"

nem cuidei de despedida 
senão o pranto me agarra
afinei bem a guitarra 
e num dedilhado assim

pelo pago me perdi 
conforme a milonga manda
eu não sei onde ela anda 
mas foi quem me trouxe aqui
eu não sei onde ela anda 
mas foi quem me trouxe aqui

ENCONTRO COM A MILONGA 
(Luiz Carlos Borges)



Serra, madrugada, milonga, Borges... inevitável que viessem lembranças da gravação do set acústico do inSULar. Duas noites maravilhosas.

Na vinícola que nos serviu de locação (um abraço aos amigos da Valduga!) havia algumas cabanas para hospedagem. Por não serem suficientes para toda a equipe, decidimos que eu ficaria ali com os convidados enquanto a equipe pernoitaria em Bento Gonçalves. Mas, finalizadas as gravações, Duca, Borges e Bebeto preferiram descer a serra para dormir em casa. Fiquei sozinho nas cabanas. 

Como dormir depois de tudo que rolou? Impossível! A cabeça, a milhão, tentava pensar tudo ao mesmo tempo. A memória repassava os melhores takes enquanto outra parte do cérebro já estava lá na frente, planejando mixagens e edição.

No meio desse turbilhão, ouvi um CLIC e o quarto ficou totalmente escuro. Cheguei à janela tropeçando e descobri que não era só no quarto. A falta de luz era geral. Ainda que, lá fora, não fizesse muita diferença: era um enorme parreiral com raras lâmpadas e a lua (que, felizmente, foi registrada no DVD!) generosamente iluminava a noite. Sem luz, tudo ficava mais claro, à medida em que os olhos desmamavam da eletricidade.

Coloquei um casaco e voltei ao espaço onde, um par de horas antes, havia rolado a gravação. O equipamento já tinha sido retirado e não havia mais ninguém ali. Sentei-me no chão, escorado num barril de vinho, e vivi, calado e inerte, um momento de rara intensidade. Coisas aparentemente desconexas começaram a fazer sentido e alguns fantasmas revelaram sua patética inexistência.

A adrenalina foi baixando enquanto imagens se revezavam harmoniosamente na minha cabeça: meu primeiro violão, a pasta plástica abarrotada de poesia pueril, os vinís da minha adolescência, as várias fases da minha carreira, os músicos talentosos com quem tive o prazer de tocar, os vários palcos, hotéis, cidades... assisti a tudo como se fossem alas de uma escola de samba lisérgica a desfilar ao som de uma balada do King Crimson.


De volta ao presente: neste carnaval de 2015 também tive uma dessas epifanias. À noite, na escuridão branca da montanha imersa em nuvens; tentando, em vão, sintonizar meu velho rádio de seis pilhas pequenas e antena torta.

A cada movimento do aparelho, por menor que fosse, embaralhavam-se as estações. Um locutor argentino invadia a polca de uma banda folclórica alemã silenciado por um pastor e fragmentos do que deve ser o que chamam de sertanejo universitário.

Coisas desconexas, fantasmas. Tudo envolto em muita estática. Uma metáfora do mundo ruidoso, multi-facetado e fragmentado ao qual temos que (tentar) dar sentido. Cada um tem sua forma de buscar este sentido. Música é a minha. Ouvi dizer que ela estava com a espinha torta. Então, quem foi que, esta noite, veio golpear minha porta?

24fev2015

Olha o inSULar aí geeeeente!


Oi! Espero que estejam tendo um ótimo carnaval. Vale para todos: quem é da folia e quem tem fobia. Onde eu me enquadro? Carnavalesco não sou, mas reconheço e louvo a importância da festa como afirmação da cultura nacional. E acho que o país nunca mereceu tanto quanto hoje alguns dias de sonho e fantasia. Porque a vida real não tá fácil.

Não tenho nenhuma história na memória vinda do olho do furacão de carnavais passados. Já contei nos meus livros a experiência de gravar o !Tchau Radar! durante o reinado de momo na cidade maravilhosa e a imersão na obra do Iron Maiden num longínquo retiro de carnaval no sul; mas...

... nenhuma lembrança de desfile, baile, bloco, fantasia. Não por terem sido apagadas pelo álcool. Por não existirem mesmo. A não ser...

... um baile infantil num clube em que fiquei a tarde inteira embasbacado olhando a banda tocar, como se não houvesse mais nada acontecendo no salão. Atraído, principalmente, pelos metais com suas curvas encantadoras e autoexplicativas de como o som é produzido. A tensão relaxada dos músicos, bochechas cheias, ataque preciso, todos no tempo exato, cada um na sua nota. Sincronia e sintonia.

Se eu fosse filmar esta cena para um filme biográfico, deixaria sem audio. Silêncio em vez de mã-mã-mã-mã-mã-mãe-eu-quero. Pra aumentar a representação dramática do rosto fascinado da criança com o artesanato da feitura musical. Fascínio causado mais pela relação dos músicos com seus instrumentos do que com a plateia.

Até hoje é o viés que mais me agrada: que o encantamento (sempre bem vindo) do público seja consequência do encantamento do músico com sua arte/ofício; e não um objetivo a ser alcançado por atalhos, a qualquer preço.

(*)

No meu calendário maluco, este é o terceiro carnaval inSULar. No de 2013 comecei os ensaios do show com Rafa e Tavares (ainda em meio às gravações do disco). No carnaval de 2014 lancei um video de Essas Vidas da Gente e fiz demos das canções que gravaríamos na serra para o DVD inSULar.

O carnaval de 2015 é véspera de lançamento do DVD pelo Canal Brasil e de shows de lançamento em Porto Alegre e Rio, cidades onde moro e morei. 2015 começou a milhão com shows em São Paulo (comemorando exatos 30 anos da minha estreia nos palcos da vida), Paraná, Minas e Mato Grosso do Sul (definitivamente não dá pra dizer que o ano começa só depois do carnaval).

Os ponteiros estão entrando em sincronia e sintonia. Mais rápido do que eu imaginava: 3 carnavais.

Talvez a tour Pouca Vogal e a assunção do meu nome tenham deixado o ambiente um pouco confuso sobre "afinal o que ele está fazendo?!?!?" (pois nem todo mundo acompanha de perto as curvas da nossa estrada). Mas o DVD inSULar coloca-nos, todos, na mesma página. Prontos pra seguir em frente. Da minha parte, muito satisfeito com o andar da carruagem e grato pela companhia de vocês.

Enfim... não quero tomar o precioso tempo carnavalesco dos caros leitores. Passei aqui só para renovar convites:

24fev : Porto Alegre-RS
autógrafos na Liv Saraiva
shopping Praia de Belas

28fev : Canal Brasil, 17h
lançamento DVD inSULar

05mar : Porto Alegre-RS
Opinião

07 mar : Rio de Janeiro-RJ
Vivo Rio

13mar : Cachoeiro do Itapemirim
Arena MIX

14mar : Vitória-ES
Arena Vitória

18mar : Pelotas-RS
Theatro Guarany

19mar : Carazinho-RS
Bier Site

20mar : Ijui-RS
Estação da Mata

21mar : Cruz Alta-RS
Clube Arranca

10abr : Juiz de Fora-MG
La Rocca

11abr : Campinas-SP
Campinas Hall

20abr : Divinópolis-MG
Yellow Hall

bah: Há outros shows em negociação. À medida em que forem confirmados, atualizo por aqui.

licença para um toque tiozão:
não dirija sob efeito de substâncias que alteram
a percepção espacial e os reflexos,
não pegue carona com quem esta alterado
e
bom feriado!
17fev2015

telefone sem fio


Quando participo de eventos literários, falo de improviso, ao sabor do momento. Por ser autodidata ou por problemas de autoestima, fujo do termo "palestra" como o diabo foge da cruz. Deus me livre de comer frango e arrotar perú! São apenas singelos e despretensiosos bate-papos. 

Com a repetição desses encontros, acabo repetindo alguns chistes. É comum eu dizer, exagerando no ar sério em meio ao bate-papo: talvez choque vocês, mas a bem da verdade devo avisá-los que houve um breve período da história da humanidade em que o ser humano viveu sem internet. Geralmente o pessoal ri, mas já antevejo um futuro em que ninguém rirá nem entenderá, achando um absurdo sem graça essa mentira de que o ser humano chegou a viver, mesmo nas cavernas, sem internet.

Com o avanço da digitalização das nossas vidas, é cada vez mais necessário, ao contar histórias antigas, explicar: não havia internet nem celular! Segue um fato desses tempos:

Quando estávamos esperando nosso bebê, eu e Adri morávamos no Rio, sem família por perto. Eu viajava direto, era a tour do Várias Variáveis. Numa tarde, estava sozinho em casa, me preparando para ir pro aeroporto quando ligaram do laboratório pra avisar qual era o sexo do bebê (além da comunicação, a tecnologia dos exames também mudou!).

Adri estava na rua, não tínhamos celular. Quando ela chegasse em casa eu já estaria viajando. Emocionado com a notícia, rapidamente fiz um cartaz: CHEGOU O RESULTADO: É MENIN..................A!

Metido a engraçadinho que sou, escrevi a letra A (portadora da notícia) no verso da folha e pendurei-a no quadro de recados. Mas, na minha excitação, sinalizei mal a brincadeira. Quando Adri chegou, não entendeu que deveria virar a folha. O laboratório já estava fechado... ela ficou sem saber.

Só consegui falar com ela horas depois, ao fim de um voo cheio de conexões, de um orelhão (telefone público que funcionava com fichas de metal, parecidas com moedas). Ela estava uma arara comigo. Se eu não estivesse longe, certamente teria levado uns cascudos.


Pois essa semana, dia 13, nosso nenê aniversaria. Até hoje não entendo porque o pessoal do laboratório não avisou que seria uma criatura tão MARAVILHOS............................A.

10fev2015

...

 

Uma folha em branco ao lado de uma caneca cheia de lápis que, com suas pontas para cima, parecem lanças em repouso numa tribo invisível. E o silêncio de uma manhã que não começou.

Um passeio rápido pelas notícias deixa claro: tudo escuro. A mesma merda (apesar de merdas diferentes) no mundo, no país, no estado... no meu time.

Talvez não... não sei... não entendo lhufas de economia e é difícil confiar em qualquer um desses spin doctors que falam o tempo inteiro, sempre dando curva e nó em pingo d'água. Sempre deformando os fatos para caberem em suas teses.

Gosto das palavras. E do silêncio. Por isso me chateia quando não nos deixam confiar nelas, quando não dão espaço a ele.

É frustrante quando situações cada vez mais complexas geram atitudes cada vez mais simplistas. Há quem associe  esse descompasso ao imediatismo das redes sociais. Será? Não sei... acho que rola também uma preguiça e falta de noção que se expressam ali por conveniência mas são naturais das pessoas. Ainda mais quando estão assustadas. E como me parecem assustadas as pessoas no momento!

Ok, ok, menos... talvez seja essa gripe fora de época que me deixa a fim de ficar na minha, em silêncio. É possível silêncio ou, nesses dias demasiado barulhentos, ele é um buraco n'água?

Tento imaginar como seria tal buraco enquanto observo o redemoinho de água prestes a descer pelo ralo da pia enquanto preparo o mate nesta manhã que nem começou.

Gosto das palavras e dos silêncios dos poetas. Dia desses passou por meus olhos, novamente, este poema do Hans Magnus Enzensberger. Coincidência?



03fev2015

estrada

Imóvel dentro do ônibus, movimento-me na estrada. Geograficamente, estou em algum ponto entre o show de ontem e o de amanhã. Tecnicamente os dois shows são em dia seguidos, mas o breu dessa hora da madrugada me faz crer que há um dia entre sexta e sábado. No momento, vivo este dia sem nome.

Mentalmente, oscilo entre sono e vigília. Gosto do que acontece com o pensamento nesse estado limítrofe. Liberta-se da linearidade, mistura tempos e situações. É agradável, apesar do desconforto de, vez por outra, esquecer o que era mesmo que estava pensando 3 segundos atrás.

Hey! Estou sonhando ou um cara naquele carro ali na frente tá mesmo jogando lixo pela janela?! E segue dirigindo de forma temerária! Caraca, não via selvageria dessas faz tempo!

Duvido que o cara seja um completo babaca, em todos os aspectos de sua existência. Se fosse, seria um babaca coerente; e eles nunca são.

É possível e provável que seja só mais um cara que, mesmo acordado, não consegue pensar sobre um assunto por tempo suficiente pra ligar causa e consequência. Isso tem de monte, gente que acha que o que não está vendo não existe. O lixo vai ficar ali, mas ele já estará longe, então... já não lhe diz respeito.

Gente que acha que a estrada foi feita só para si e desaparece quando "si" já passou, tem de monte. Gente que acha que a natureza é infinita e que se recupera sozinha, enquanto dormimos, das merdas que fazemos acordados.

Nos primóridios da www (sim, meu jovem, vivi esses tempos) usava-se muito o termo superestrada da informação. Analogia que ficou para trás, superada pela evolução exponencial da www. "Estrada" já não traduz.

Mas nós não evoluímos tão rapidamente, né? Dá pra sacar nas redes sociais o mesmo comportamento de quem joga lixo pela janela. O desconhecimento de que a www também é um "ecossistema", que a vibe ruim se espalha. 

Apesar da falta de inteligência para ligar os pontos, da dificuldade de ler o mapa,  há, sim, um caminho que vai da causa à consequência. E cuspir para cima não é uma boa. Mesmo pra quem gosta de andar na chuva.


17jan2015

# hashtag #

Depois do massacre no semanário francês vi várias manifestações muito bem pensadas, desenhadas e escritas com o mote "je suis Charlie". Também li algumas análises igualmente bem articuladas com o viés "eu não sou Charlie". ( Pra desanuviar o ambiente: até passou por meus olhos o chiste "afinal, quem é esse tal de Jesuis?" )

Mas o que ficava mesmo, cada vez que os olhos saiam das notícias, era o gosto amargo, a angústia das vidas interrompidas. Sim, a morte é natural, coisa da vida. Mas algumas mortes vivem (ops) saindo da gaveta, teimam em não se adaptar a essa definição.

(*)

Correndo o risco das simplificações: por mais contraditório que pareça, parece que todos querem a mesma coisa, só divergem na maneira de chegar "lá" (ao menos todos que verbalizam seus quereres de forma minimamente racional, o que já demonstra uma disposição ao diálogo, por mais tênue que seja em alguns casos).

Mas o destino final, o ponto de chegada, é algo abstrato demais para ser a única coisa que nos une. A vida não é a chegada, é a caminhada. Temos que, permanente, buscar pontos em comum também no percurso, na maneira de chegar "lá".

Ou então patinaremos para sempre como uma criança que tenta alinhar as cores de um cubo mágico com um martelo.
13jan2015


DR, não.

Aproveitei as duas semanas de folga entre o último show de 2014 e o primeiro de 2015 para reunir, aqui em casa, meus baixos. Tranquilizei-os ao fazer o convite: nada de retrospectivas, balanços, jantar da firma, promessas, planos. Discutir relacionamento? Nah!

Durante o ano, nós passamos muito tempo juntos na estrada, mas sabe como é, na correria da estrada pouco conversamos. E as coisas mais interessantes são ditas sem pressa nem pretensão, depois de intervalos de silêncio em que, simplesmente, estamos. Para isso é preciso tempo. Tempo suficiente para ficar quieto, sem pensar. Só estar.

Apesar da minha abissal falta de habilidade com ferramentas, aproveitei para dar uma geral na regulagem dos braços, pontes e captadores. Quanto a eventuais problemas eletrônicos, só posso oferecer uma prece, uma palavra de carinho. E prometer encaminhar a um especialista, pois disso nada entendo.


A melhor parte do check up é passar uma flanela, às vezes com cera, pela madeira dos instrumentos e sacar novas marcas do tempo que porventura tenham passado batido (com o perdão do trocadilho). Arranhões, manchas, ausência de algumas lascas de verniz que ficaram nalgum palco, nalgum estúdio...

... cicatrizes. Somos o que nos tornamos.

Meus baixos devem ver o mesmo em mim. Uma mecha de cabelo branco que não havia aqui, um óculos com mais grau ali, um calo mais denso acolá. Terão ciúmes dos calos gerados por raquetes e não pelas cordas? Talvez.

Foi numa dessas limpezas que meus olhos pararam no número de série do Rickenbacker, gravado na peça de metal onde se pluga o cabo.

Nos Warwicks, o número de série fica na mão (os dois últimos algarismos indicam o ano de fabricação e um letra indica o mês). Nos Steinberger, a posição varia e a informação é pouca. Ao contrário dos Rickenbacker, ainda não há, na www, uma base de dados confiável indicando, pelo número de série, a data de fabricação deles.

No site da Rickenbacker, descobri que meu baixo "nasceu" em dezembro de 74. Quarenta aninhos! Se o signo muda no dia 22, ele tem 70% de chance de ser sargitariano e 30% de ser um companheiro astral. Como todo baixo, me parece bem capricorniano.


Desde a virada 1999/2000, em que toquei no reveillon da Av Paulista, tenho optado pelo sossego nessa data. Some-se a uma natureza introspectiva um ofício que me coloca a viajar durante o ano inteiro e, como resultado, tudo que quero nesse feriado é ficar na minha. Distante de aeroportos, hotéis e da passagem frenética das faixas amarelas que dividem o asfalto.


Sigo o rumo contrário ao fluxo da gauchada que corre pro litoral e vou pra serra, ou fico mesmo em POA. Adoro andar por suas ruas desertas, tão silenciosas nesses dias que se pode ouvir o som das sinaleiras trocando de cor (sim, há um som; inaudível quando há carros por perto). Mesmo que me bata uma melancolia, quase tristeza, cada vez que dispara o alarme nalguma casa vazia.

E como são frequentes os disparos! Tantos que, por óbvio, a grande maioria não deve ser causada por assalto. Muitas vezes é o mesmo alarme que repete seu pedido de socorro por conta da passagem de algum pássaro, gato ou do vento movimentando algum galho de árvore... sei lá o que os dispara na falta de um ladrão. Sei que soam melancolicamente tristes na falta de alguém que os desligue.

Roubo é uma merda. Mas, de forma especial, é deprimente esse pedido de socorro artificial, mecânico, sem proprietários, ladrões ou polícia envolvidos. Sem resposta, só encontra ouvidos que nada têm a ver com seu caos particular. Testemunha um equívoco, vários equívocos, na precária maneira como vivemos: cada um por sí e fodam-se todos.

(*)

Voltando ao silêncio, aos silêncios, foi numa conversa com meus baixos que me dei conta do tanto que semeei nos últimos anos. A gente vai fazendo as coisas sem pensar, chega a esquecer que fez e, de repente, surpreende-se quando começam a aparecer os frutos. Um exemplo de colheita dos últimos dias: a chegada do DVD inSULar ao seu destino, a casa das pessoas. EMseuLAR.

Deve ter sido o Warwick que fez a matemática da semeadura (esse rigor é bem coisa de alemão): em 7 anos, Novos Horizontes, Pouca Vogal e inSULar. Além das 29 músicas inéditas que estes trabalhos trazem, são três propostas bem distintas (e ele nem falou nos cinco livros e nesse nosso encontro semanal no blog; será que não mencionou porque meus baixos têm ciúmes da literatura? Nah).

Por isso eu é que me surpreendo quando alguém se surpreende com a renovação da galera que se liga na minha arte e com a lealdade dos De Fé. Como assim, cara pálida? É óbvio que estamos andando em frente. E que maravilha é estar sempre renascendo! A cada tour, a cada show, canção, acorde...


Acho que foi o Steinberger que apareceu com a tabela acima quando falávamos sobre o repertório do DVD (esquematizar conhecimento é bem coisa de americano). 

O DVD passa a ser o vade-mécum da tour. Mas sempre há espaço para outras canções. Sampa no Walkman em Sampa? Talvez Anoiteceu em POA em Porto Alegre... Infinita Highway pra tirar o pessoal das cadeiras num gran finalle? Quem sabe uma primeira vez para Milonga do Xeque-Mate?

O DVD é a rampa de decolagem da qual espero partir para belos passeios a cada noite.

Como diziam os antigos professores de tênis para enfatizar a importância da base firme das pernas na geração de força e precisão nos golpes: não se pode disparar um canhão de uma canoa. Para improvisar louca e destemidamente é necessário muito ensaio. Ter os pés no chão para voar.

(*)

Ok, fim de feriado, hora de voltar à lida. E o show de retorno é em data significativa. Estarei no palco exatos 30 anos depois do meu primeiro show. Dá pra fazer ideia do quanto é especial para mim?

Recebi algumas solicitações de entrevista sobre a data. Tentei responder adequadamente e, adequadamente, deixar claro que meu coração não esta em 85. É claro que me orgulho muito da minha trajetória. É para fazer jus a ela que estou de corpo e alma em 2015!


A cada ano que passa é mais cansativo falar do passado pois, além da subjetividade inerente à criação artística, existe a necessidade e a dificuldade de contextualizar, explicar como era o ambiente para quem não o conheceu. E a cada ano, há mais gente que não o conheceu.

Não posso negar que, para quem viveu tudo intensamente, tentar explicar é chato como escrever bula de remédio. Imagino que traduzir um romance, por melhor que ele seja, seja menos divertido do que lê-lo. É tarefa cerebral demais, completamente diferente de tê-lo escrito.

A alternativa seria ficar disparando gracinhas e afirmações rasteiras, como se eu fosse um moleque anônimo clicando likes e dislike. Nah, nem pensar. Não posso me dar ao luxo da leviandade. Seria triste e melancólico como um alarme escandaloso de ninguém para ninguém, uá uá uá uá uá uá uá uá uá uá...

(*)

O resumo dessa ópera: tem sido uma jornada incrível! Sou muito grato por poder continuar semeando e colhendo. E batendo papos musicais com vocês e com meus baixos.

Amigos, 2015 chegou e promete! Fica o convite para o primeiro passo:


bah : noooossa, falei pra caramba, né? É que estou mesmo muito excitado com a tour. Agora que o DVD chegou, minhas intenções/invenções ficarão mais claras. Espero não ter enchido o saco de quem chegou até aqui com retrospectivas, balanços, jantar da firma, promessas, planos. Discutir relacionamento? Se for preciso, em silêncio, né?
abraços
06jan2015

tipo... 90%

Rolou na www, semana passada, um video interessante: durante 10 anos um cara fez uma simples pergunta a diversos artistas (a maioria, músicos): "Lennon ou McCartney?". Curto e grosso, sem lenga-lenga, lero-lero, blá-blá-blá. Lennon ou McCartney, como num plebiscito. As respostas viraram um documentário.

De ínicio, achei péssima ideia. Não sou muito fã de listas de 10+, retrospectivas de fim de ano, seleções de todos os tempos, astrologia... desconfio de esquemas rígidos que tentem enquadrar a realidade, vivências e sensações. Mas reconheço que são tentativas divertidas, que geram bons papos e que podem nos mostrar muitas coisas, ainda que por tabela, diferentes da intenção primeira.

O resultado da enquete é o que menos interessa. Nesses casos, cada voto é um mundo particular e não faz sentido somar mundos particulares pois o resultado nunca será um mundo coletivo. O que me chamou atenção foi a falta de sinceridade em, digamos, 90% das respostas.

Artistas geralmente são pavões que só gostam de falar de si mesmos. Como naquela piada em que um diretor de cinema estava jantando com uma garota e, depois de uma hora falando sobre si mesmo, disse "Ok, chega de falarmos de mim, vamos falar de você: diga-me o que você achou do meu último filme". Artistas pop, como políticos, entre falar a verdade ou algo que os deixe bem com seu público, às vezes titubeiam.

90% (digamos) dos entrevistados no documentário "John ou Paul" estava ciente de que, no momento, é mais cool optar por John. Na sua característica mais asquerosa, o mundo pop define com obsolescência programada o que é cool. Chega uma hora em que o cool deixa de ser cool (geralmente quando ganha as massas).

Foi muito interessante sacar, nos poucos segundos antes de dar a resposta, o cérebro dos entrevistados trabalhando a mil para dizer algo interessante, descolado, surpreendente. Vários quiseram parecer mais que cool ao girar em 180 graus a seta do coolismo, citando a ousadia do autor de Helter Skelter; outros mandaram as respostas malandrinhas de sempre (trocadilhos com Lennon/Lenin, votos no George, no Ringo, no Keith Richards... e um metido a besta disse "nenhum dos dois"). Também foi citado o clichê "juntos eram maiores que a soma das partes".

Digamos que 90% dos caras e minas quiseram usar a questão para fazer um manifesto em uma frase enaltecendo... a si mesmo. Ao fim dos vinte minutos de documentário, depois de centenas de declarações, muito pouca gente pareceu sincera. Talvez porque a resposta franca para a maioria das pessoas fosse pouco midiática, um anticlímax: "não sei" ou "os dois".

Das respostas mais honestas, 90% (digamos) foi de mulheres. Corroborando minha tese de que elas são mais maduras; por isso (geralmente) não discutem futebol nem fazem guerras.

E aí, quem você prefere, Yoko ou Linda (com L maiúsculo)?

desenho da
Melissa Mattos
bah : não sou capaz de escolher entre John e Paul. Mesmo. Gosto dos dois. Mesmo. Tenho toda a discografia do Lennon e só uma coletânea do McCartney; mas, se um arqueólogo do futuro quisesse deduzir minha preferência através do exame de minha discoteca, cometeria um equívoco pois, como disse uma das entrevistadas sobre quem esnoba Paul: "Tente escrever Eleanor Rigby e veja como você se sai". 
Feliz 2015!!!!
30dez2014

amor às causas perdidas

A todos vocês, prezados leitores deste blog, o que de melhor posso desejar é que cheguem a idade que cheguei ainda surpreendendo-se, de vez em quando, com algumas coisas. Sinal de que as certezas não engessaram a alma, de que a alma não esta quebrada.

Nesse domingo, um show na cidade de Timbó-SC encerrou lindamente o ano inSULar. Há algo especialmente mágico em shows que começam no fim da tarde e entram noite adentro, com os primeiros acordes sob a luz do sol e os últimos sob o luar.

Nesse momento de fim de ano, quando todos estamos mais sensíveis a metáforas que falam da passagem do tempo, é significativo pensar num dia que vira noite enquanto fazemos música. Eu sempre soube dessa beleza, mas ela me surpreende cada vez que revivo a experiência. Afinal, é da natureza da beleza, apesar de conhecida, causar sempre a impressão de primeira vez.

Minutos antes do show, um Papai Noel desceu de helicóptero ao lado do palco. Ops, permitam-me reescrever: Não foi "um" Papai Noel, foi "o" Papai Noel. Sim, pois eu acredito em Papai Noel. Só me dei conta ali, foi a descoberta/surpresa do dia. 

Isso explica muita coisa que vivi. Vitorias que tive, erros que cometi; o que sou.

Acreditar em Papai Noel é legal mas é uma merda pois uma hora alguém vai perguntar "Hey, por que você fez aquilo naquela vez?", E você vai dizer que foi porque acredita em Papai Noel e não vai colar. Vai parecer papo de louco ou malandro, otário.

Não adiantará dizer que veio de outros tempos e esta sempre no horário, que é peixe fora dá'gua, borboleta no aquário, puro-sangue puxando carroça, um tanque de guerra aerodinâmico. Mesmo sobre o significado de otário haverá dúvida (palavra cuja aplicação difere sutilmente em cada região do país).

Quem aí também acredita em PapaI Noel certamente já viveu essa situação. O que? Ninguém aí acredita em papai Noel?!? Ok, me basta a impressão, ainda que falsa de que, nessa época do ano, não estou só.


bah: enquanto tocava Dom quixote, em Timbó, eu observava o voo de um drone sobre o público... para onde nos levará o aumento exponencial do registro da realidade? Essa hiperrealidade é real? Matará "o" Papai Noel ou fará nascer vários? Não dá na mesma, essa matemática sem o número1, feita só de "nenhum" e "vários"?

Feliz Natal!
23dez2014


Hoje não vai rolar texto. Volto terça que vem com a programação normal, ok?

Enquanto isso, estou em meio a pilhas de DVDs para autografar para quem comprou pela Stereophonica.

Logo mais à noite (21h de terça) participo do Sarau Elétrico no Bar Ocidente. Quem estiver em PoA e quiser ouvir umas leituras, bons papos e canções ou só quiser uma foto ou autógrafo, é só pintar.

Sexta gravo a música da Jornada Literária de Passo Fundo 2015, da qual participarei.

Domingo fecho o ano inSULar em Timbó-SC.

Coisas que me tiram o tempo mas me dão tanto prazer!


Abraços e boa semana para todos!
16dez2014

AGENDA





12dez : Rio de Janeiro
Gravação Invasão da Cidade
Espaço Furnas

13dez : Americana-SP
Espaço Americana

16dez : Porto Alegre-RS
Sarau Elétrico
Bar Ocidente

21dez : Timbó-SC
Parque Central de Timbó

******* 2015 *******

10jan : São Paulo-SP
Citibank Hall

24jan : Ouro Branco-MG
Clube Campestre

05mar : Porto Alegre-RS
Opinião

07mar : Rio de Janeiro-RJ
Vivo Rio

nossa vã filosofia

Pipocam na minha mente imagens recentes de multidões vistas pela janela de uma van. 

A primeira delas em Tupã, interior de São Paulo, na saída do show inSULar. Que maravilha ver pessoas felizes, satisfeitas com o espetáculo, acenando! Arte sempre envolve risco (se não envolve risco pode ser legal, mas não é arte) e a sensação de que a noite foi bacana é sempre uma vitória.

Algumas pessoas pedem que a van pare para fotos, mas ao mesmo tempo que pedem já parecem entender que não é aconselhável um tumulto no tráfego de saída do local do show e seguem sorrindo e abanando.


Corta para a imagem da van que se dirigia, no dia seguinte, à passagem de som para participação no show do Teatro Mágico, em Sampa. 

O trajeto do hotel ao Memorial da América Latina passa pela Allianz Parque, que eu teimarei em chamar de Parque Antatártica ainda por algum tempo. Uma multidão tensa caminha em direção ao estádio na esperança de permanecer na primeira divisão, no temor de cair para a segunda. 

Sei como é, meu time já caiu. Duas vezes que podem ser multiplicadas por 10.000 pelo fato de nosso rival local ainda não ter passado por esse limbo, o que deixa a flauta mais estridente. Sei que, por questão de estilo, a palavra "inferno" seria melhor do que "limbo", mas não acredito em quem coloca futebol acima de tudo. Acho que é papo da boca pra fora de quem quer virar vinheta de ida para os comerciais de algum programa esportivo do meio dia.

Sim, é dolorido, mas é uma dor lúdica como acho que deva ser lúdica a relação com o esporte. Minha necessidade de racionalidade no que diz respeito ao assunto se limita a um par de parágrafos por semana escritos por gente que respeito no ramo. No mais, quero mais é incoerência e inconsequência. Na paixão esportiva, ao contrário da vida real, as lágrimas por vitória e derrota são muito parecidas. 

é a verdade
a-ver-a-cidade
alguma coisa acontece
no meu coração
Corta para a terceira imagem de multidão vista da van: na saída da mesma passagem de som a que me referi acima, vejo uma fila enorme esperando a abertura do local do show. Entendo bem como é essa espera pelo momento de prazer. Mas confesso não me lembrar se aquela música do Tom Petty (The Waiting ?) diz que a espera é a melhor parte ou a parte mais difícil... Por incoerente que possa parecer, talvez dê no mesmo, como as lágrimas por vitória e derrota do nosso time.

A arte tem mais essa virtude: faz fila valer a pena. Penso nisso na fila do buffet onde escrevi mentalmente este texto e onde me comprometi, mentalmente, a escrever justamente sobre buffets numa hora dessas. Faz sentido, mas é um lance estranho, né?

(*)

bah 1: digam o que disserem os entendidos no assunto, eu acho que um Campeonato Brasileiro em que o time mais ao norte (com exceção do Sport de Recife) seja o Goiás é um campeonato mais pobre, menos colorido. Taí: além do meu Grêmio, já tenho duas torcidas paralelas para 2015: pela volta do Botafogo à primeira divisão e por um mapa mais equilibrado em 2016.

Até lá, antecipando o clima de fim de ano, desejo que todos, em suas trajetórias dentro e fora das quatro linhas, dentro e fora de vans e multidões, tenham mais lágrimas de vitória do que de derrota.

há algo além das gotas de chuva
na janela da van
mais do que sonha
nossa vã filosofia
bah 2: hoje vai um texto com erros de português acima da média pela falta de tempo pra corrigir. Cheguei ao hotel em cima da hora, vindo da sessão de autógrafos com pocket-show na Saraiva do Shopping Ibirapuera onde (finalmente!) recebi meu DVD. Um abraço a todos que pintaram lá e ajudaram a fazer uma noite tri-legal! Vão rolar, espero, outros eventos desses, Brasil afora, pra gente se encontrar. Até!


09dez2014


interfaces

Apressei os passos ao limite de transformá-los numa corrida para pegar ainda aberta a porta do elevador que começava a fechar-se. Pela visão periférica notei, mais atrás no corredor, uma senhora que não chegaria a tempo.

Ao mesmo tempo que meus olhos procuravam no painel do elevador o botão para reabrir a porta, instintivamente estiquei o braço pra fora na brecha que restava. É o método Flintstone: não muito elegante, mas funciona.

Na real estou sendo injusto. É uma tecnologia mais avançada que botões a do sensor que entende a presença do meu braço e bloqueia a porta. Mas é um gesto mais grosseiro e irracional da parte do usuário, daí a sensação "Flintstone". Enfim... funcionou. A senhorinha conseguiu entrar no elevador e agradeceu.

Só então consegui decifrar qual, afinal, era o botão do painel que, pressionado, manteria a porta aberta. Não estava sinalizado com um ícone de setas apontando para os lados nem palavras em inglês como em outros elevadores. Era um singelo AP que só supus significar Abrir Porta depois de conferir seu par, o botão FP que supus - raciocinando em paralelo - significar Fechar Porta.

(*)

O fato de deixarmos para o fim a opção mais simples testemunha a complexidade esquizofrênica do mundo em que vivemos. 90% do tempo jogado fora em estúdio é fruto da resistência de alguns músicos em aceitar as soluções musicais mais diretas. Ou, ao menos, partir delas. Parece lei que, antes disso, deva-se tentar as alternativas mais esdrúxulas.

(*)

Sinalizar banheiros (feminino e masculino) e escolher nome de filho são coisas bem diferentes mas que escondem uma mesma armadilha. Algumas vezes na tentativa de ser original se inventa cada coisa!

Nomes estranhos por esse motivo, todos conhecemos. Sobre a sinalização de gênero nos banheiros, minha condição de viajante me faz especialista. Em hotéis, casas de show, aeroportos, bares de beira de estrada, etc... já vi todo tipo de ícone e palavra designando banheiro para homens ou mulheres.

Tanto que, dia desses, quando vi um singelo e óbvio M na porta de um banheiro, precisei conferir o que havia na outra entrada para saber se o M significava MEN ou MULHERES. Perigoso confiar no mais simples. Era necessário saber se na outra porta havia um W de WOMEN ou um H de HOMENS.

É... tempos de alta complexidade semiótica até para uma simples mijada!

(*)

Mas tempos interessantes para lançar um DVD e cair na estrada. Bora!


06dez : Tupã-SP
Célimo Buffet

07dez : São Paulo-SP
participação no show do
Teatro Mágico

08dez : São Paulo-SP
pocket show e autógrafos, 19h
Saraiva Shopping Ibirapuera

09dez : Curitiba-PR
pocket show e autógrafos
Trajeto Lumen FM

12dez : Rio de Janeiro
Gravação Invasão da Cidade
Espaço Furnas

13dez : Americana-SP
Espaço Americana

16dez : Porto Alegre-RS
Sarau Elétrico
Bar Ocidente

********** 2015 **********

10jan : São Paulo-SP
Citibank Hall

05mar : Porto Alegre-RS
Opinião

abraços
02dez2014

Força e Delicadeza

"Tá por aí?" dizia a mensagem no WhatsApp. Tive um máu pressentimento. Vinda em hora estranha e de um amigo em comum, temi que fossem novidades sobre Luciano, que não andava bem por esses dias. Uma daquelas notícias que a gente já espera receber e nunca espera receber.

Enquanto teclava "Tô", tentei afastar a expectativa ruim da cabeça com a lembrança de que, há cinco anos, quando Luciano passava por outro momento delicado, acontecera algo semelhante mas com final feliz. Daquela feita, havia sido um SMS que, com a mesma pergunta, em hora pouco usual, de outro amigo em comum, havia gerado a mesma apreensão. Naquele caso, a impressão felizmente fora descartada no torpedo seguinte. 

Desta vez, infelizmente, a segunda mensagem confirmou a pior hipótese. 

Putz.



Fiquei dividido. 

Por um lado, tinha vontade de estar perto da família para dar um abraço na Dona Dália (que tão lindamente criou seus 3 meninos), para acarinhar as meninas que perderam o pai (putz! com a mesma idade que eu e meu irmão perdemos o nosso; sei que elas encontrarão vários anjos pelo caminho pois as boas vibrações se realimentam), para tentar dizer algo relevante para Roberta e Duca (mesmo sabendo que nenhuma palavra nem o silêncio é relevante numa hora dessas), para fazer uma prece silenciosa (pois acredito nisso, inclusive no reencontro), para encontrar colegas de arte/ofício que certamente estariam por ali sem saber direito o que dizer, pra onde olhar, onde colocar as mãos (ah, esses roqueiros gaúchos e sua falta de jeito com as coisas da vida real!)... enfim, na falta do que fazer pra realmente ajudar, tinha vontade de simplesmente estar ali.

Por outro lado, sentia-me grato por estar longe, em Minas, prestes a entrar no palco para mais um show. Um pouco por covardia mesmo, confesso (ah, essa falta de jeito com a vida real!); um pouco por achar que não há maneira melhor de celebrar a vida de um músico do que fazendo música.

Enquanto tentava digerir a overdose de informação e emoção, fiquei brincando com uma vírgula: Bravo, Luciano! Bravo Luciano! Bravo, bravo Luciano! 

Uma vírgula bailarina, dançando entre dois significados da mesma palavra. Ambos valendo e descrevendo uma bravura digna de entusiasmados aplausos. Casa cheia, público de pé. A bailarina, elegante, como se tudo de extraordinário que fez fosse normal, sutilmente agradecendo.

Enquanto isso, a ficha foi (vai) caindo aos poucos como caem do telhado gotas da chuva que já parou faz tempo. Alguns pingos ainda cairão anos depois, mesmo em meio a uma tarde de sol. Ficarão uma fração de segundo pendurados na borda, alongando-se até não poder mais, refletindo um raio de luz e... cairão. Emitindo, ao tocar o solo, um som que só os mais atentos ouvirão.

foto: Melissa Mattos
Na madrugada, depois de um show que me ensinou muito sobre minha arte/ofício, naveguei por timelines repletas de mensagens doces oferecendo um pouco de conforto à familia. Oferecer conforto é uma forma de reconfortar-se, a gente fala também para tentar compreender o que diz. 

Não há como ser original numa hora dessas pois a tentativa de entender a morte acompanha o ser humano desde antes da descoberta do fogo. O significado, escorregadio, tá sempre alguns metros à nossa frente nessa corrida. Suficientemente perto para sabermos que ele existe (ela existe), longe demais para ser apreendido (aprendido).

Mas, putz, com um cara tão bacana, jovem e talentoso, todas as frases bonitas e bem intencionadas deixavam na boca um desesperançado gosto amargo de "Será? Mesmo?".

Foi aí que lembrei da força e delicadeza do alemão diante de tudo que a vida lhe trouxe e levou. Parei de brincar com a vírgula, fui direto ao ponto: "Será! Mesmo!"

foto: Gustavo Vara
bah: numa dessas conversas em estúdio, entre um take e outro, Luciano me contou que tinha ido surfar no Chile (se não me falham a memória e a geografia). Estava dirigindo com as pranchas amarradas no teto do carro. De repente, sentiu um tranco e o carro começou a andar mais rápido. Olhou pelo retrovisor e viu que as pranchas tinham caído. Aerodinamicamente mais livre, o carro havia ganhado agilidade e velocidade. 

Imprecisa ou não a lembrança, se me permitem, vou guardar essa imagem do alemão: agora ele está livre, mais leve e ágil, podendo voar mais alto, indo onde só o pensamento pode chegar. Pegando a onda perfeita pois, lá, ela existe. Tocando a nota justa pois, lá, tudo se harmoniza. Olhando pro retrovisor e vendo, em vez de pranchas no chão, só boas lembranças.

- Será? Mesmo?
- Será! Mesmo!

25nov2014

os tempos são outros / os erros, os mesmos

Está pacientemente explicado em todos os manuais de equipamentos de audio: tenha quantos elos tiver a corrente do som, o último equipamento a ser ligado e o primeiro a ser desligado deve ser as caixas de som. O motivo: alguns equipamentos, ao serem (des)ligados, produzem um ruído que pode danificar os alto-falantes. Nunca soube de um caso desses na vida real, mas seguro morreu de velho.

Ok, como diz o poeta mineiro, a lição sabemos de cor, só nos resta aprender. Nesses anos todos em que equipamentos de som fazem parte da minha rotina, raramente (des)liguei-os na ordem certa. Sempre ouço o tal ruído desnecessário e irritante que, por sorte, nunca danificou nada.

Dá-se no meu cérebro o mesmo tilt que rola quando leio PUSH/PULL em alguma porta. Sempre faço o movimento errado! Ou na fração de segundos em que a mão tem que decidir, afinal, qual é a gaveta das meias e qual só tem cuecas. Aberta a gaveta, triste constatação: era a outra.

Na hora de abrir a porta do armário da cozinha para pegar a erva-mate, a mesma coisa: geralmente coloco a mão e descubro (sempre surpreso, mais uma vez decepcionado) que aquele é o lado das dobradiças, a porta abre do outro lado. 

Se qualquer um desses casos fosse uma roleta russa, eu não estaria aqui para contar. 

Acredito serem desnecessários mais exemplos. Suponho que o caro leitor seja inteligente (apesar de estar lendo minhas bobagens). Só mais um, pelo prazer da conversa: 

De uns tempos para cá, quando pinta alguma ideia musical, eu a gravo em video no computador. Por incrível que pareça, dos programas que uso, o de video é mais simples do que o que só grava audio. E traz a vantagem de mostrar depois que diabo de acorde estranho eu estava tocando.

Quando está tudo pronto para apertar o REC, são oferecidas as opções DONE e CAPTURE. Eu sempre escolho DONE, e fico com cara de tacho ao ver a tela se fechar. Anta! A opção certa para começar a gravar é CAPTURE! 

Eu poderia erguer a sobrancelha, empostar a voz e dar uma desculpa respeitável: bah, tenho coisas mais importantes em que pensar do que esses detalhes. Mas, nah... devo reconhecer que já tive tempo mais do que suficiente para aprender. Mesmo estando, por vezes, com a cabeça na lua.

Outra possível desculpa que não vou usar: no caso das placas sinalizando como se abre a porta, a palavra PUSH remete sonoramente (aos falantes do português) ao verbo PUXAR e induz ao equívoco. Com o tempo a gente cola um imaginário post-it de cor berrante no cérebro para nos lembrar que a palavra gringa significa o contrário do que parece. E da próxima vez que temos que abrir uma porta só uma coisa reverbera no cérebro: é o contrário! o contrário! o contrário!

Sim, mas... contrário do quê mesmo? Infelizmente, um número par de contrários nos leva à estaca zero. O "contrário do contrário" deixa tudo como está. Como uma volta de 360 graus que parece mudar tudo e nada muda. E aí a gente se perde na conta dos contrários e repete (mais uma vez surpreso e decepcionado) o gesto errado ao tentar abrir a porta.

Mais uma desculpa: no lance de (des)ligar equipamentos na ordem certa, a pegadinha está no fato de que a ordem muda: as caixas de som devem ser as últimas ao ligar e as primeiras ao desligar. No cérebro pouco privilegiado deste que vos escreve a ciranda do contrário-do-contrário-do-contrário se repete no último-primeiro-último-primeiro.

Quanto ao DONE das gravações em video, poderia me desculpar dizendo que sempre imagino que a palavra se refira aos preparativos a serem feitos antes gravar (escolha de nome e localização do arquivo) que, quando são oferecidas as opções DONE e CAPTURE estão... DONE. 

No caso das gavetas do roupeiro e da porta do armário da cozinha, não tenho argumentos em minha defesa, meretíssimo. Culpado, peço a misericórdia de uma pena branda.

(*)

Ok, pequenos erros insignificantes dos quais a gente se dá conta mas não consegue corrigir. Mas... e os grandes erros? Aqueles que fazem a diferença e que, traçoeiros, nem sequer sabemos que cometemos? Como corrigí-los ou sobreviver a eles? Será que, sem dar bandeira, eles também são sementes de canções e poemas?


abraços!
nos vemos na estrada
onde quem me abre as portas
é minha música 
e o carinho de vocês
18nov2014



...

Amigos: hoje não vai rolar texto à meia-noite por motivos de : "tem dias que quero ficar quieto". Volto semana que vem. Enquanto isso, cuidem-se e divirtam-se (na ordem que quiserem)!



Bah: amanhã, 11h11min,  através do site www.screamyell.com.br/site vai ao ar o ESPELHO RETROVISOR, um tributo trilegal aos EngHaw capitaneado pelo Anderson Fonseca e com esta galera bacana:

01 Toda Forma de Poder (gessinger1986) por Anacrônica (PR)
02 Terra de Gigantes (gessinger1987) por Phillip Long (SP)
03 Refrão de Bolero (gessinger1987) por Monocine (SC/MG)
04 Infinita Highway (gessinger1987) por Strobo (PA)
05 Somos Quem Podemos Ser (gessinger1988) por Dingo Bells (RS)
06 Alívio Imediato (gessinger1989) por Dias Buenos (SP)
07 O Papa É Pop (gessinger 1990) por Forfun (RJ)
08 Pra Ser Sincero (gessinger/licks1990) por Tsubasa Imamura (Japão)
09 Quartos de Hotel (gessinger1991) por BLANCAh (SC)
10 Ando Só (gessinger1991) por Mário Wamser (MG)
11 Pose (gessinger1992) por A Banda Mais Bonita da Cidade (PR)
12 Parabólica (gessinger/licks1992) por Vera Loca (RS)
13 A Promessa (gessinger/casarin1995) por Nevilton (PR)
14 Ilex Paraguariensis (gessinger1995) por Bebeto Alves (RS)
15 3 Minutos (gessinger1997) por Dolores 602 (MG)
16 Eu Que Não Amo Você (gessinger1999) por Lula Queiroga (PE)
17 Concreto & Asfalto (gessinger1999) por Esteban Tavares (RS)
18 Números (gessinger2000) por Dario Júlio & Os Franciscanos (MS)
19 Dom Quixote (gessinger/galvão2003) por Fernando Anitelli (SP)
20 Outras Frequências (gessinger2004) por Borba (RS)
21 - Não Consigo Odiar Ninguém (gessinger2007) por Sonorata (MG)

Por enquanto, fica um emocionado agradecimento a todos que participaram. Em breve falo mais a respeito.


Mais detalhes, amanhã no jornal Zero Hora, com quem bati o seguinte papo:  


1. Você teve algum tipo de participação no disco, tipo opinando sobre os arranjos ou a escolha das música?

Não. Fiz questão de não me meter. Este tipo de projeto é mais legal quanto menos reverente for. Aqueles discos de dueto, clássicos da indústria fonogáfica... melhor deixar para um futuro longínquo, né? 

Quero mais é que minhas músicas se defendam sozinhas do que vier pela frente. Pouca coisa me deixa mais feliz do que andar por alguma cidade do nordeste e ouvir aleatoriamente uma música minha transformada em forró, em algum bar ou na beira da praia. Samba também é legal. Mas forró me deixa particularmente emocionado. Ou ouvir um mineiro enchendo de sutilezas a harmonia do violão para uma música que escrevi só com um baixo no colo e uma ideia na cabeça. 


2. Você chegou a ouvir as músicas do tributo? Algum arranjo que gostaria de destacar?

Sim, me emocionei muito! Mais do que algum arranjo especial, meu destaque vai para a diversidade geográfica e estilística das releituras. E para o fato de serem todos artistas que certamente terão uma longa estrada pela frente. Também achei legal a escolha livre dos caras abranger as 3 décadas de carreira.


3. O que achou do tributo? É algo que você esperava? De repente dá para esperar uma espécie de redescoberta dos Engenheiros nessa data redonda de 30 anos e tal?

Não esperava. Acho que meu trabalho nunca foi daqueles que emprestam prestígio automático a quem se aproxima dele, tipo a meia dúzia de compositores insensados que abrem portas para quem os regrava. Talvez por ser muito pessoal, não muito fácil de enquadrar. Quando a onda era rock, me achavam muito MPB. Quando a onda virou POP eletrônico, passaram a me achar muito rock. Quando era pra ser nacional, eu era muito gaúcho e quando inventaram o rótulo rock gaúcho, eu não tava mais aqui. Agora, que a onda é revival, dei um tempo na grife e sai solo. Não tô me vangloriando nem me queixando disso, mas é um fato. Por isso me surpreendeu o tributo.

Quanto a redescobrimento, é uma noção que já não faz mais sentido. Cada ouvinte/artista tá fazendo sua própria agenda. Tudo esta vivo, suspenso... no éter online.

ZH 11/112014